Acabou a guerra na Europa!

Rui Andrade.

Dr. Rui Andrade.

Os órgãos de Comunicação Social assinalaram em 2015 o 70º aniversário do fim da II Guerra na Europa.

Muitos líderes mundiais associaram-se à referida efeméride entre os quais também Angela Merkel, Chanceler do país que deu origem ao maior drama que a Humanidade algum dia viveu.

Rio Maior acompanhava o desenrolar da II Guerra Mundial, de harmonia com as sensibilidades políticas de então. Os que eram adeptos dos Aliados (Inglaterra, França, Estados Unidos da América, União Soviética) também conhecidos por anglófilos, juntavam-se no estabelecimento do sr. Alberto Ferreira Goucha, conceituado republicano, na Rua Serpa Pinto, (pai do sr. Alberto Santos Goucha que, após 25 de Abril de 1974 presidiu à Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Rio Maior). Os que se inclinavam para as forças do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) conhecidos por “germanófilos” reuniam-se também em torno de um velho republicano, José Sequeira Santos, vulgarmente conhecido por José Diolindo, proprietário do Café Celeste, que se situava ao lado do edifício da Câmara Municipal, onde hoje existe uma agência bancária.

Toma-se conhecimento na vila de Rio Maior, a 7 de Maio, da capitulação incondicional da Alemanha e que, finalmente, a guerra acabara no velho continente Europeu.

Em Rio Maior organizou-se uma manifestação que foi acompanhada pela Banda dos Bombeiros Voluntários (ao tempo sob a regência do Maestro Alves Coelho, filho) percorrendo as principais ruas da vila, ostentando bandeiras nacionais e dos Aliados, evidenciando a alegria sentida com tão importante acontecimento. Esse cortejo veio a terminar no Café União, completamente cheio, onde, por três vezes consecutivas e com grande entusiasmo, foi cantado o Hino Nacional.

Dando continuidade a esses festejos, realizou-se um baile no Clube Riomaiorense, com grande animação, até de madrugada (associação que estava sediada, nesse tempo, no então denominado Largo General Carmona, por cima da actual agência de viagens).

No dia seguinte, em Rio Maior, todos os estabelecimentos encerraram as suas portas e foram embandeirados todos os edifícios públicos e associações. Houve nova manifestação, que percorreu de novo as ruas, acompanhada pela Banda dos Bombeiros, tendo sido cumprimentadas as autoridades, realizando-se, à noite, um animado baile, desta vez, na Associação dos Bombeiros Voluntários.

Também, noutro ponto do concelho, na Vila da Marmeleira, terra sempre muito bairrista, foi organizado um cortejo que, acompanhado pela Filarmónica da Casa do Povo, percorreu as ruas da sede da freguesia e se deslocou também a Assentiz, tudo isto tendo acontecido na melhor ordem.

E, para coroar esses festejos, ficou célebre o grande Almoço Comemorativo da Vitória das Nações Unidas, realizado em Rio Maior, no dia 21 de Maio de 1945. Este memorável encontro, que reuniu cerca de 130 pessoas, de todo o concelho, teve lugar no salão da Moagem, no sítio do Enxerto, que o seu proprietário, sr. Joaquim Dionízio Pereira (que na década de 50 do século XX integrou, como Vereador, um executivo camarário) gentilmente cedeu para tal fim. Este evento foi presidido pelo Dr. Arnaldo Vidigal Pais, médico que se radicou em Rio Maior e aqui constituiu família, tendo também sido médico da EICEL (empresa que geria as minas do carvão) e tendo pertencido também ao corpo clínico da Santa Casa da Misericórdia de Rio Maior. O Dr.Vidigal Pais (que bem conheci e com quem tive a honra de conviver) além de presidir ao evento, coube-lhe também a representação da Embaixada dos Estados Unidos da América. Estiveram presentes diversas individualidades: o Dr. Mário Arez, Delegado do Procurador da República (cargo que hoje é designado de Procurador-Adjunto), José Augusto Carvalho Franco, Vice-Presidente da Câmara Municipal, Eugénio Casimiro, Notário do concelho, José Matos Coutinho, Chefe da Secretaria da Câmara Municipal, Dr. Alberto Sabino Ferreira, Médico Municipal. Usaram da palavra o Dr. Vidigal Pais, o Dr. Alexandre Carvalho, médico em São João da Ribeira, Bernardo Varela, Eugénio Casimiro e Matos Coutinho e José Augusto Carvalho Franco. O almoço decorreu num ambiente de grande solidariedade pela Paz no Mundo e com grandes manifestações de regozijo pela Vitória dos Aliados.

Como curiosidade destaca-se a ementa do almoço, apresentada em verso, como se indica, que se crê ter sido da autoria do Maestro Alves Coelho, que tinha já grande projecção no meio riomaiorense:

EMENTA

No almoço, o que nos tenta/ É com certeza a EMENTA.

Filetes de linguado com arroz de mariscos, à Portuguesa

A seguir, eis com beleza,/ O prato tão desejado:/ Linguado à Portuguesa,/ Que deve vir com certeza/ Ricamente cozinhado.

E p’ra ter mais sensação,/ P’ra ser melhor o petisco, O Linguado em questão,/ É feito com berbigão/ Ou outro qualquer marisco.

Costeletas de vitela à Francesa

Agora, p’ra variar,/ Com picantes com certeza,/ Vem um petisco sem par/ Que nos fará delirar,/ Deixando a alma surpreza./ São costeletas panadas,/ D’uma vitela que berre,/ Que vêm ornamentadas/ E muito bem disfarçadas/ Avec pomme de terre…

Sopa à Inglesa

O almoço principia/ Com prato feito a primor:/ A saborosa iguaria/ Sopa Inglesa, a melhor./

Pato à Americana com arroz de caril

Vem agora, à Americana,/ O bom Pato d’uma cana/ Que a todos faz impressão./ Pois com caril e arroz,/ Aos novos dá outra voz,/ E aos velhos… consolação.

Lombo de porco com esparregado

O Lombo, vem a seguir./ É comer até ouvir/ O grunhir do bicho morto…/ Pois que com vinho regado,/ E acompanhado a Esparregado/ É de ficar tudo torto.

Salada de frutas à Brasileira

Nesta salada de frutas,/ Em que o desejo nos anda/ Tentando, em capricho vil,/ Vejo as riquíssimas trutas/ Iguais à Carmen Miranda/ Desse formoso Brasil.

Doces

E agora p’ra terminar,/ (Ou o fim, belo não fosse)/ Vem um estupendo manjar:/ Variadíssimo Doce.

Bebidas nacionais e estrangeiras

As bebidas generosas/ Todas elas bem gostosas,/ São nacionais e Estrangeiras./ Tomem cuidado!… Cautela!…/ Não transformem a piela,/ Em tremendas bebedeiras…

Café

Amigos e Senhores: — O rico almoço,/ Que foi demonstração da nossa Fé,/ Vai ter, para acalmar quem estiver grosso,/ E para terminar, o bom CAFÉ.

Olhando para esta deliciosa ementa, só nos ocorre um breve reparo, é que os cozinheiros, certamente por esquecimento, não incluíram nela uma salada russa a acompanhar uma destas iguarias! Talvez tivesse sido outra a razão.

E foi assim que Rio Maior saudou o fim das hostilidades na Europa.

Autor: Rui Andrade

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