Celíaco?

A Doença Celíaca na opinião de Daniela Afonso, nutricionista da Associação Portuguesa de Celíacos.

Daniela Afonso, nutricionsita da Associação Portuguesa de Celíacos.

Daniela Afonso, nutricionsita da Associação Portuguesa de Celíacos.

A Doença Celíaca (DC) é uma patologia autoimune, que ocorre na sequência da ingestão de glúten em indivíduos geneticamente suscetíveis e que se caracteriza por atrofia das vilosidades do intestino delgado. O glúten desencadeia, neste órgão alvo, uma resposta inflamatória mediada pelo sistema imunitário que origina a progressiva destruição da mucosa e lesa as vilosidades, que consequentemente diminuem a sua capacidade de absorção de nutrientes.

Em Portugal, aponta-se que existam entre 10 a 15 mil pessoas diagnosticadas com doença celíaca. Estima-se, no entanto, que o número de celíacos efetivo, ao nível nacional, se situe entre os 70 e os 100 mil. Deparamo-nos com uma taxa de subdiagnóstico de aproximadamente 85%, percentagem de indivíduos que têm a doença, mas desconhecem esse diagnóstico.

O que antes era considerada uma doença pediátrica é agora percebida como uma doença que afeta todas as faixas etárias, o que se confirma através dos novos sócios da APC, em que cerca de 50% dos celíacos inscritos, no passado ano, foram diagnosticados na idade adulta.

Esta doença apresenta uma grande variedade de sintomas e de sinais, podendo atingir o organismo afetando vários sistemas de órgãos ou, no outro extremo, com uma ou outra queixa, por vezes muito ligeiras.

As manifestações da DC são habitualmente divididas em dois grupos: os doentes com sintomas clássicos (frequentes nas crianças) que apresentam casos de diarreia, flatulência, distensão abdominal, cólicas, emagrecimento, desnutrição ou atraso de crescimento; e os doentes com sintomas atípicos, geralmente adultos com sintomas extraintestinais, como: anemia ferropénica, osteopenia/osteoporose marcadas e/ou precoces, dermatite herpetiforme, estomatite aftosa recorrente, infertilidade e abortos recorrentes, alterações neurológicas e psiquiátricas, alterações na função da tiroide, alterações nas análises hepáticas e alterações na dentição definitiva (hipoplasia do esmalte).

Apresenta uma clínica compatível com a descrita? Pode e deve fazer o rastreio. Nos adultos a dificuldade do diagnóstico revela-se porque muitos dos sintomas atípicos são confundidos com os de outras doenças. O rastreio à DC pode ser incluído num check up anual, pois este traduz-se numa análise sanguínea (serologia) a um marcador específico, que pode solicitar junto do seu médico de família. Devem, ainda, ser rastreados os familiares de primeiro grau de celíacos (pais, irmãos ou filhos), bem como todos aqueles que apresentam patologias que, reconhecidamente, se relacionam com a DC, tais como a diabetes tipo 1, tiroidite autoimune/hiper ou hipotiroidismo, dermite herpetiforme, ataxia, síndrome de Down, de Turner ou de Williams e deficiência seletiva de IgA.

A DC é uma doença crónica, ou seja, para toda a vida. O seu tratamento não assenta num esquema medicamentoso ou qualquer outro procedimento clínico, o que existe é uma forma simples de controlo da doença – o cumprimento rigoroso, sem quaisquer exceções, de uma dieta isenta de glúten (DIG). Apenas a eliminação desta proteína da alimentação permite que o intestino regenere por completo da lesão e o organismo recupere.

Excelente notícia para os portadores de DC. Mantendo a DIG, os indivíduos demonstram um padrão de desenvolvimento e uma condição geral de saúde igual ao de qualquer outro individuo que não tenha DC.

Implementando uma dieta isenta de glúten com escolhas saudáveis e diversificadas, respeitando os hábitos alimentares individuais, e necessitando apenas de manter uma vigilância clínica e nutricional, o celíaco torna-se um individuo saudável, mantendo a DC e possíveis patologias associadas controladas.

Entre os dias 4 e 6 de novembro, as estações ferroviárias de Oriente (Lisboa) e Campanhã (Porto) recebem a Check-Up, Dia Nacional do Rastreio, onde a Associação Portuguesa de Celíacos marcará presença para a sensibilização do rastreio da doença celíaca. Esta iniciativa vai contar com a participação de várias sociedades médicas e associações de doentes de todo o país e permitir, num único local, a realização de rastreios a várias especialidades médicas.

Sem glúten! Expressão que se tornou popular no nosso quotidiano. Menu sem glúten? Produtos com a menção «isento de glúten». Quando não é uma escolha, mas sim o tratamento de uma doença, ainda, largamente subdiagnosticada em Portugal e menos conhecida, a Doença Celíaca.

Atentando no alcance e nas implicações da DC, foi fundada em 1992 a Associação Portuguesa de Celíacos (APC), que presta apoio multidisciplinar aos celíacos e seus familiares, facilitando a adaptação à DIG e a manutenção da qualidade de vida após o diagnóstico.

Com sede em Lisboa, a APC chega aos celíacos e seus familiares através do portal (www.celiacos.org.pt), da página de Facebook (/APCeliacos), de newsletters e dos vários eventos realizados ao longo do ano.

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