Europa. Que futuro?

por João Teodoro Miguel, Membro/Investigador do CICPRIS

por João Teodoro Miguel, Membro/Investigador do CICPRIS

Hoje, trago-vos um tema que considero da maior relevância. Os líderes europeus estão verdadeiramente preocupados com a Europa?

Ao lerem este pequeno artigo, podem também refletir um pouco sobre o que os líderes europeus fizeram, estão a fazer, ou deveriam fazer no futuro, relativamente ao papel da Europa no mundo. Sobre o posicionamento geopolítico e geoeconómico europeu, qual a estratégia – ou falta dela – que as lideranças europeias utilizam.

Gostaria de salientar que são os regimes, através dos seus governos, que fazem a política interna e externa dos seus Estados. Mas, as dificuldades são acrescidas quando são vários os Estados envolvidos num projeto tão alargado. No caso, o europeu.

A União Europeia (UE) é uma união económica e política composta por 28 Estados-membros independentes situados principalmente na Europa. Se olharmos para trás e analisarmos com detalhe a história, verificamos, que alguns países europeus, ao saírem da sua geografia, definiram e marcaram até aos dias de hoje, fronteiras e Estados com a criação de novos países. Adriano Moreira chamou a isto, “europeização do globo”. Ou seja, a Europa era a centralidade do mundo, eram os europeus que impunham as suas metodologias políticas e económicas perante os povos desses novos países em diversos continentes.

Atualmente pode dizer-se que a Europa não tem qualquer centralidade na política mundial. Esta Europa, com estes líderes, não tem qualquer hipótese no curto prazo, de inverter a viragem já feita pela nova realidade. Esta liderança, ainda não percebeu que perdeu legitimidade dentro da comunidade internacional. O Ocidente perdeu a senda de pensar e agir em termos estratégicos, na captação e melhoria das relações internacionais, com os Estados emergentes asiáticos.

A Europa do século XV tinha a iniciativa, tinha a capacidade para viajar até aos outros. Esses europeus criaram um novo paradigma no globo e, por isso conceberam uma ordem espacial centrada na Europa. Agora, em 2015 a Europa e o Atlântico já não têm qualquer centralidade estratégica, económica ou normativa perante a nova ordem.

Caminhamos apressadamente para o declínio europeu. O projeto europeu que tinha na sua base: a unidade; a solidariedade; e a igualdade dos seus Estados membros. Com o passar dos anos pergunta-se, onde é que isso está? Podemos sim, dizer que foi uma utopia bonita. No momento em que escrevo este texto, ainda não é do conhecimento público se a Grécia vai ou não ter financiamento. O governo grego quer fazer a pergunta aos gregos através de um referendo “em que condições querem ficar na área do euro”, o governo quer assim garantir a sua legitimidade para enfrentar a crise. Os alemães ao saberem desta pretensão apressaram-se a dar, eles, o recado: “os gregos, é melhor fazerem um referendo à sua permanência na União”. Por seu lado os britânicos em 2016 ou 2017, vão levar a referendo a sua permanência ou não na União. Portanto, a desunião parece ganhar força a cada dia que passa.

Evidentemente que sou favorável ao projeto europeu, mas, não a este projeto. O clima de incerteza quanto ao futuro da União é bem real e verdadeiro. Ora, o mundo está em grandes transformações em todos os continentes. É uma evidência. Na demografia global, a Europa pesa cada vez menos. Os europeus estão a perder poder na nova formulação das regras da comunidade internacional.

A ação das novas potências emergentes está a revolucionar a forma como pensamos a política internacional. China, Japão, Índia, Brasil, Coreia do Sul, Malásia, Singapura entre outros, são os novos centros de interesses. Senão vejamos e fica aqui apenas um pequeno exemplo: os Estados Unidos da América (EUA) deixaram de ter interesse estratégico na Base das Lajes nos Açores, e isto porquê? A nova centralidade, o novo Ocidente, está nos países em cima referidos e não nos países europeus.

A Europa tem de pensar estrategicamente sobre o que pretende dos EUA, do Japão, da China. A Europa recusa-se a pensar e a atuar como uma potência que ainda o é na área económica, mas falta-lhe qualquer coisa. Vejamos. O atual caso ucraniano: a Ucrânia é uma linha geoestratégica importantíssima para a demarcação da Europa em relação à Rússia. O que é que tem sido feito de concreto por parte da UE, que resultasse em benefício da Europa e da própria Ucrânia enquanto país independente? Falta o quê? A Europa para ser uma verdadeira potência política, económica e social, tem de ser também, para o mal dos nossos pecados, uma potência militar. E ainda o não é.

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