I – A taberna: Espaço, Gastronomia e Sociabilidade

I – A taberna: Espaço, Gastronomia e Sociabilidade – Contribuição para o seu conhecimento histórico

Autor: João de Castro.

Autor: João de Castro.

Para um erudito do século XVIII (Padre Raphael Bluteau), tabernas eram as casas “onde se vende vinho e algumas coisas de comer”.

O vinho é citado por 75 vezes nos textos bíblicos quer na sua qualidade de bebida, produto real e de consumo, quer como elemento figurativo ou alegórico de carácter místico ou metafísico.

A cultura clássica, mediterrânica e solar, tal como a doutrina Judaico-cristã, emprestam-lhe um lugar de relevo na literatura e na arte, na pintura, na escultura, no teatro, na música.

Desde sempre que o homem pretendeu viver em grupo, realizar-se coletiva e autonomamente. Aí na taberna, ele consegue quedar-se, ouvir ou falar, sem regras, fugir à realidade, opinar, julgar inexoravelmente a sociedade e o meio, cantar ou viver horas de amargura e melancolia.

Estes lugares secretos e únicos são, ainda hoje, uma permanente revelação. Lá, se firmam contratos, se chega à jura ou à vingança. Se anuncia a festa.

Núcleos de convivialidade histórica entre portugueses sempre críticos e treinados na arte de maldizer, teimosos jogadores de cartas, do burro, da malha e da laranjinha.

É que as tabernas como centros de ruído, de silêncio, de conflitualidade e desordem, de reflexão literária ou metafísica, ou simples lugar de preguiças e repousos, vão mesmo acabar.

Encontramos, quer na civilização Grega quer em autores tão famosos como Sófocles ou Aristófanes, quer na civilização Romana Cícero, Horácio ou Tito Lívio invocarem os termos tabernas e taberneiros.

Na idade média também as tabernas eram muitas e ruidosas.

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A poesia medieval, também toca no vinho e nos taberneiros. Gil Vicente deixou a maior das homenagens às tabernas e ao vinho com o pranto de Maria Parda.

Garcia de Resende, no seu Cancioneiro Geral recolheu também diversos apontamentos e testemunhos. Com referência explícita à mulher taberneira.

O romântico Garrett nas Viagens na Minha Terra exprime uma certa repugnância pelas tabernas onde tomava sempre limonadas, exaltando muito embora o vinho de Carcavelos ou do Cartaxo.

Eça de Queirós, magríssimo e de lunetas fumadas, não desdenhava entrar nas tabernas de Belém, onde bebiam marinheiros e tocadores de guitarra, enquanto Eça comia entusiasticamente, pescada com batatas e esplendorosas caldeiradas portuguesas, fumegantes, excecionais.

No princípio do século passado, a taberna era ainda uma instituição culturalmente eficaz.

Raul Brandão descreve-as com saber. Sem esquecer Malhoa, Leal da Câmara pinta-as como ninguém (1911).

O Estado Novo, esse, hipócrita, hostiliza a taberna, mas sugeria, de modo quase obsessivo que beber vinho era dar de comer a um milhão de portugueses.

Em Coimbra, a taberna sempre foi um paradigma. Reuniu estudantes e homens de letras. Promoveu a discussão e o encontro. Intrometeu-se na literatura.

E deu ao carapau frito, à lampreia e ao bacalhau um estatuto superior de fama e glória há muito inscritas na tábua da gastronomia nacional.

Apagados que sejam os sinais da decadência ou da falta de higiene, queremos que a taberna mantenha as características portuguesas, a fim de que possa readquirir o espírito e o prestígio, a poesia, o pensamento, a graça e perversidade.

E venham de lá a caldeirada, o feijão-frade, a meia desfeita, as canjas e os caldos verdes, o rancho, o pé de porco e o salpicão.

Nós não queremos deixar morrer as tabernas. Elas já foram os lugares do prazer e do sofrimento, da solidão e do companheirismo, no fogo, da discussão ou do furor.

Tão veladas como as igrejas, muitas das nossas tabernas portuguesas desfrutam ao segundo a exaltação da meia-luz, os tronos onde se instalam as garrafas, não desdenham sequer a presença de imagens de santos e um balcão onde se conjuga o vinho e larga a moeda com a mesma unção que os fiéis emprestam a qualquer acto de culto e de mística interioridade.

Vamos erguer bandeiras pelas tabernas portuguesas. Bandeiras e paus de loureiro, já se vê.


BIBLIOGRAFIA

História de Rio Maior, Fernando Duarte, 1979;

Lisboa em Baptista Bastos, Âncora Ed. 2015;

A Taberna – Espaço, Gastronomia e Sociabilidade, Paulino Mota Tavares, Santarém, 1995;

Tabernas – Lugares de Encontro e Sociabilidade em Setúbal, Câmara Municipal de Setúbal, 1990;

Tabernas de Lisboa, Luís Pavão e Mário Pereira, Assírio e Alvim, 1981.

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