A professora Cidália Marques e o conceito de active lab

O Agrupamento Fernando Casimiro aceitou o desafio de ser uma das seis escolas a nível do país a experimentar novas estratégias, novos recursos e a ter uma autonomia maior.

Observação – Uma vez que o Ano Letivo de 2016/2017 tem a sua cerimónia nacional de abertura em Rio Maior, nesta sexta-feira dia 10/9/2016, precisamente na escola sede do Agrupamento Fernando Casimiro Pereira da Silva e com a presença do ministro da Educação que ali visitará a «Sala do Futuro», entendemos ser do interesse dos internautas darmos aqui a conhecer esta entrevista com a professora Cidália Marques, publicada em 3 de junho de 2016 no jornal Região de Rio Maior.

Nota da redação – Na leitura desta entrevista com a professora Cidália Marques, as referências temporais devem ser entendidas exclusivamente como dizendo respeito à data de publicação da mesma no jonal Região de Rio Maior, edição nº 1443, de 3/6/2016.

Inicialmente designado como Sala do Futuro, o Active Lab da escola sede do Agrupamento Fernando Casimiro Pereira da Silva foi inaugurado no dia 25 de maio de 2016, com a presença do diretor geral da Educação, José Vítor Pedroso, da presidente do Município de Rio Maior, Isaura Morais e da vereadora da Educação, Ana Filomena Figueiredo e outros convidados.

A professora Cidália Marques, que já dirigiu o Centro Escolar Poeta Ruy Belo em S. João da Ribeira é a coordenadora do projeto Active Lab. Nesta entrevista, a docente fala deste novo conceito de ensino que nesta escola assenta no Active Lab.

Cidália Marques, coordenadora do projeto Active Lab do Agrupamento Escolar Fernando Casimiro Pereira da Silva.

Cidália Marques, coordenadora do projeto Active Lab do Agrupamento Escolar Fernando Casimiro Pereira da Silva.

REGIÃO de Rio Maior (REGIÃO) – Professora Cidália Marques, quer explicar qual é o conceito da Sala do Futuro?

Cidália Marques (Cidália M.) – Eu não gosto muito do nome Sala do Futuro, gosto mais do termo Ambiente Inovador e por isso é que a nossa sala se chama Active Lab. A sala é do presente, para ser utilizada hoje. A ideia é utilizar novas metodologias, desconstruir a sala de aula como a conhecemos em que o professor expõe a matéria e os alunos estão passivos a absorvê-la. É fazer trabalho projeto, é organizar os alunos por tarefas diferenciadas em que estejam todos ativos a trabalhar, embora haja momentos em que o professor expõe a matéria. É para isso que a sala tem os espaços que tem: são espaços de partilha, de entreajuda, do investigar, do apresentar e do criar.

O fundamental é a mudança de metodologias, tanto que nós não fizemos um grande investimento aqui na sala, embora a tecnologia esteja presente. Redistribuímo-la porque a ideia é mesmo mudar a forma de trabalhar em sala de aula mas não apenas nesta sala; é que se faça algum do trabalho na Active Lab mas que também nas outras salas se mude a forma de trabalhar com os alunos. Pretende-se que haja mais salas como esta mas também que nas salas de aula ditas normais se mude a metodologia e quando for necessário que se recorra ao Active Lab. Muitas das áreas de que eu falei podem ser trabalhadas em sala de aula normal, sem recurso a grandes tecnologias – que se forem necessárias também podem ser levadas daqui porque são portáteis –, portanto não têm que ser necessariamente trabalhadas aqui neste espaço. –

Se conseguirmos mais algum financiamento teremos outros equipamentos muito úteis para a dinamização de outras atividades mas para além disso o que nós queremos mesmo é mudar as metodologias.

REGIÃO – Vocês não estão muito agarrados ao monolitismo de um programa educativo, presumo.

Cidália M. – O desafio que o senhor diretor geral de Educação, Dr. José Vítor Pedroso nos lançou é nesse sentido: é mudar metodologias e poder adaptar o currículo também.

REGIÃO – Não perguntarei sobre o interesse dos alunos porque os jovens são geralmente curiosos e gostam de inovações. Mas como é que tem sido a adesão dos professores?

Cidália M. – Só para dar um exemplo, nós abrimos uma turma de formação e neste momento (n.r.: 27 de maio de 2016) já temos duas, portanto isso quer dizer que há um grande interesse da parte dos professores. Depois da inauguração do Active Lab houve mais colegas a quererem saber como é que podem utilizar a sala e registámos mais pedidos de integração na formação.

REGIÃO – Só professores deste Agrupamento…

Cidália M. – Estes de que falei são só do Agrupamento Fernando Casimiro. Também há professores de fora interessados mas para já temos que nos concentrar nas necessidades do nosso Agrupamento e no futuro se verá.

REGIÃO – Como é que se irá processar a passagem dos alunos pelo Active Lab?

Cidália M. – A ideia é que todos os alunos passem por aqui, desde o pré-escolar ao 9º ano, incluindo os alunos com necessidades educativas especiais.

REGIÃO – Por que patamar vão começar?

Cidália M. – Vai funcionar por requisição dos professores. Nós estamos a fazer o processo de formação, esses professores irão começar a delinear atividades – nós vamos trabalhar em trabalho projeto – e depois começam a utilizar a sala.

Neste momento, os alunos dos clubes, nomeadamente os do Clube de Robótica e Programação já a utilizam, aliás já estão a utilizar essa metodologia desde o ano passado.

REGIÃO – Com a introdução destas inovações – metodologias e equipamentos –, pode concluir-se que o ensino básico está a virar-se muito para a parte técnica?

Cidália M. – Está a virar-se mais para a parte experimental do que para a técnica. É a aprendizagem ativa, sobretudo. Pretende-se que os alunos estejam mais envolvidos na aprendizagem e que esta seja centrada neles. Desenvolver as competências para o século XXI. Temos que pensar que estes alunos têm que estar preparados para a adaptabilidade.

REGIÃO – Acredita mesmo que estarão preparados para isso?

Cidália M. – Acredito!

REGIÃO – Possivelmente estarão preparados para os primeiros cinco anos mas para os outros cinco a seguir… se calhar já não, tal é a velocidade a que as coisas estão a evoluir…

Cidália M. – A ideia é que eles sejam adaptáveis…

REGIÃO – Eles ficam é com bases para, por si próprios, conseguirem progredir, não é?

Cidália M. – Ficam adaptáveis. Nós nunca sabemos o futuro, por isso é que eu não gosto do nome Sala do Futuro. O futuro é muito imprevisível, portanto temos é que os preparar para o receberem e se adaptarem a ele. As coisas há vinte ou trinta anos eram completamente diferentes. Nós crescemos num mundo que era mais ou menos estável, mais ou menos seguro, mas estes alunos de hoje, não.

REGIÃO – A professora Cidália acha que ficou bem preparada para enfrentar este Mundo atual? Acha que a sociedade humana, como a conhecemos, é compatível com esta vertigem evolutiva?

Cidália M. – Não é fácil para nós, que somos de uma geração em que tudo era mais lento. Eu tive bons mestres, bons professores. Hoje há muito bons professores, também. Penso que isso nos dá a preparação para enfrentar as coisas… É certo que não é fácil adaptarmo-nos constantemente, por isso acho tão importante prepararmos os jovens para essa realidade, razão pela qual lhes damos ferramentas para se defenderem desta evolução vertiginosa. Não é fácil para eles, não é fácil para os pais, não é fácil para a sociedade.

REGIÃO – Não acha que a desestabilização que está, assim, a ser introduzida nas comunidades desorganiza completamente a vida em sociedade?

Cidália M. – Não diria que desorganiza completamente mas que não nos dá segurança, por vezes não dá.

REGIÃO – A falta de segurança conduz ao medo, a atitudes radicais…

Cidália M. – Pode ser mas nós também temos que ter força para enfrentar novos desafios.

REGIÃO – Os jovens estão a ser preparados para terem essa força mental?

Cidália M. – Penso que as escolas estão a fazer tudo para isso. Os pais, muitos deles estão a fazer tudo o que podem para isso. Não sei se todos os pais, todas as escolas têm essa consciência… Eu tenho esperança que sim! Muitas escolas estão preocupadas com segurança na internet, o bullying, falam dos temas da sociedade… Tenho muita esperança no futuro – sou uma pessoa muito positiva! – E tenho muita esperança nestes jovens. A adaptabilidade é uma boa capacidade para eles darem a volta. O Mundo é difícil… para nós também era no nosso tempo, talvez com outros desafios, mas o Mundo é mesmo assim: cada época tem os seus desafios.

REGIÃO – Da visita do diretor geral da Educação resultou uma proposta que vos terá feito e à qual o Agrupamento respondeu que sim…

Cidália M. – Exatamente.

REGIÃO – Em que é que consiste essa proposta?

Cidália M. – Ainda não temos muitos pormenores mas o desafio é que esta seja uma das seis escolas a nível do país a experimentar novas estratégias, novos recursos, a ter uma autonomia maior – cerca de 70% o que significa que vamos poder mexer nos currículos, nos horários, na flexibilidade… – Vamos ver. O objetivo é alcançar 100% de sucesso com os alunos.

REGIÃO – A senhora é uma grande defensora destas novas metodologias. Onde é que se iniciou nesta experiência?

Cidália M. – Eu tive uma boa formação no Magistério Primário de Caldas da Rainha. Tive muito bons mestres. Mais tarde, quando fiz a minha formação em Educação Especial e no Mestrado de Informática posso dizer que tive sempre bons mestres que me apontaram novos caminhos. Foi sempre uma procura de novas metodologias, novas apostas. Penso que isso nasce connosco: a aposta em melhorar todos os dias e fazer com que os nossos alunos tenham novas oportunidades e novas formas de conseguirem atingir o sucesso. Foi sempre o meu caminho, o meu sonho que a Escola melhorasse. O que está aqui, nesta sala, não é assim tão novo. Já quando estive em Chãos e mesmo antes – eu estive alguns anos no Alentejo a dar aulas – fazia muitas das coisas que faço aqui. Isto é um caminho; nós enquanto professores vamos fazendo um caminho e vamos melhorando ao longo dos anos e vamos procurando o nosso método: vamos juntando uma série de experiências e estratégias que vemos que dão resultado e que melhoram os resultados dos nossos alunos.

REGIÃO – Em março deste ano esteve numa formação em Bruxelas sobre a Sala de Aula do Futuro, o que significa que lá fora também se está a fazer este caminho…

Cidália M. – Lá fora também se está a fazer esta mudança mas pelo que percebi Portugal está bem à frente. São eles próprios a manifestar essa opinião. Ainda agora, na inauguração do nosso Active Lab, um espanhol da editora Santillana o afirmou novamente; já o tinha ouvido dizer em Bruxelas que Portugal é um dos países que está mais à frente nas tecnologias e que tem mais salas deste género. A Santillana é uma das nossas parceiras que nos ajudaram a complementar a sala.

Isto é um projeto de escola que só é possível porque todos contribuíram nesse sentido. E foi muito vivido pelos miúdos, sobretudo os do ensino Vocacional; foram eles que pintaram a sala; tudo o que aqui está neste momento foi organizado por eles: o Active Lab não foi montado por adultos para eles. Foi muito interessante ver-lhes o brilho dos olhos quando começaram a ver tudo a crescer… Não saíam daqui! Estiveram aqui duas semanas a montar esta sala toda, connosco. E os auxiliares? Não foi só porque estavam a trabalhar na escola que deram o seu melhor: eles envolveram-se mesmo no projeto. Os docentes, uns mais que outros, conforme as suas disponibilidades porque a escola tem que continuar.

Nós já estávamos a trabalhar nisto há bastante tempo. Entretanto a senhora vereadora da Educação lançou o desafio às duas escolas (n.r.: Fernando Casimiro e Marinhas do Sal) para avançarem para a construção do projeto – que foi realmente construído em conjunto, num mês e pouco. Agora estamos à espera de poder candidatar o projeto com vista a obtermos mais financiamento para podermos construir mais espaços como este.

REGIÃO – Falou do empenho dos alunos do ensino Vocacional. Será que é este o tipo de ensino que mais lhes diz?

Cidália M. – Eu acho que temos lugar para tudo numa escola: para um ensino mais generalista e para o mais prático. Os alunos não aprendem todos da mesma maneira e dentro de uma sala de aulas temos alunos com diferentes formas de aprender, daí que todos fiquem a ganhar com este tipo de metodologias, particularmente os alunos com grandes capacidades, porque a verdade é que quando o professor está a falar fá-lo, normalmente, para o aluno médio e os que têm grandes capacidades não conseguem tirar partido de todas as suas capacidades quando se está a falar para o aluno médio, portanto estas novas metodologias dão para todos os alunos que assim conseguem desenvolver potencialidades que não desenvolveriam caso estivessem apenas a ouvir debitar informação. Estas novas metodologias são para todos: para os muito bons e para os que têm mais dificuldades; é nesse sentido que estamos a apostar e penso que é uma boa aposta.

Entrevista e fotos: Carlos Manuel

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