Cancro do pâncreas: perspetiva da SPG

Cancro do Pâncreas: perspetiva da Sociedade Portuguesa de Gastrenterologia

A opinião do Professor Doutor F. Castro Poças, do Serviço de Gastrenterologia, Centro Hospitalar do Porto, Hospital Santo António, membro da direção da Sociedade Portuguesa de Gastroenterologia, emitida por ocasião do Dia Mundial do Cancro do Pâcreas (comemorado a 13 de novembro)

Infografia

CancrodoPâncreas

O cancro do pâncreas é o tumor maligno do sistema digestivo com pior prognóstico, com uma sobrevivência global aos 5 anos de apenas 5%. A sua incidência tem vindo a aumentar, surgindo atualmente em Portugal cerca de 1 400 novos casos por ano. No momento do diagnóstico mais de metade (cerca de 60%) dos doentes apresentam metastização (disseminação para órgãos à distância), 20 a 25% apresentam doença localmente avançada (cirurgicamente irressecável) e apenas 15 a 20% são candidatos a tratamento cirúrgico.

O risco de cancro do pâncreas aumenta com a idade, sendo a idade média no momento do diagnóstico de 71 anos, com ligeiro predomínio no sexo masculino.

O tabagismo crónico é o principal fator de risco identificado. Alguns fatores dietéticos, tais como a ingestão de gorduras, a obesidade e o sedentarismo também aumentam o risco. O álcool parece ser um fator de risco adicional, particularmente na presença de pancreatite crónica. Existe uma predisposição familiar para o cancro do pâncreas, estando o risco aumentado nos familiares de 1º grau de um indivíduo com a doença (particularmente quando esta surge antes dos 50 anos).

O cancro do pâncreas é habitualmente silencioso até uma fase avançada da doença e os sintomas variam com a localização do tumor no próprio órgão. Os sintomas são relativamente inespecíficos, como dor abdominal, perda de apetite, emagrecimento e cansaço. Dependendo da localização do tumor no pâncreas, pode surgir icterícia (coloração amarelada dos olhos e pele).

A ecografia abdominal, por ser um exame simples, não invasivo e inócuo, é muitas vezes o exame inicial. No entanto a sua acuidade é limitada na avaliação de todos os segmentos do pâncreas. A tomografia computadorizada (TAC) e a ressonância magnética (RM) apresentam excelente acuidade, sendo muito relevantes no diagnóstico e estadiamento. A ecoendoscopia, uma técnica mais recente, em que é utilizada uma sonda de ecografia de alta resolução acoplada a um endoscópio, realizada sob sedação, estabeleceu-se igualmente como um exame indispensável no diagnóstico e estadiamento do cancro do pâncreas. Permite visualizar com acuidade todo o pâncreas, sendo de extrema utilidade no estadiamento loco-regional e para a realização de biópsias transendoscópicas.

No cancro do pâncreas é fundamental uma abordagem multidisciplinar, tendo a Gastrenterologia um papel crucial nas várias etapas do diagnóstico, estadiamento e tratamento desta doença. A abordagem terapêutica deve ser individualizada, tendo em consideração as características do doente e do próprio tumor. No momento do diagnóstico apenas é possível realizar cirurgia com potencial curativo em 15 a 20% dos doentes. Na maioria dos casos o tratamento passa pela realização de quimioterapia, muitas vezes isoladamente, ou em combinação com radioterapia. A inclusão em ensaios clínicos deve ser, sempre que possível, equacionada em qualquer fase da doença.

Na última década assistimos a grandes progressos na investigação molecular do cancro do pâncreas, com a identificação de biomarcadores com potencial relevância diagnóstica e prognóstica e com a reformulação de novos alvos terapêuticos. Salientamos um importante estudo, publicado este ano (2015), que descreveu a utilidade de uma proteína (GPC1), detetada no plasma sanguíneo, com elevada sensibilidade na deteção de células neoplásicas do pâncreas e com elevada correlação com a atividade tumoral. Estes biomarcadores também poderão vir a ser úteis no rastreio de cancro do pâncreas em grupos de risco e na monitorização da resposta ao tratamento. Novos dados de investigação têm ainda permitido identificar marcadores moleculares com valor preditivo na resposta ao tratamento (por exemplo, na identificação dos doentes que mais beneficiam de cirurgia) e que poderão vir a dirigir a seleção de fármacos anti-tumorais, de acordo com a sensibilidade das células cancerígenas. É possível que a história natural e o prognóstico desta doença sejam profundamente alterados nos próximos anos.

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