Cláudia Fonseca e Ger.Fa. são a mesma pessoa

A arquiteta, Cláudia Fonseca é a pintora riomaiorense Ger.Fa.

Cláudia Germano Fonseca, 25 anos de idade, é do concelho de Rio Maior, freguesia de Asseiceira.

É mestre arquiteta pela Universidade Lusíada de Lisboa e fez Erasmus no último ano do curso em Roma, na Sapienza Università di Roma Facoltá Ludovico Quaroni.

“Não sei bem explicar o porquê da arquitetura quando tive de escolher, sei que desde pequena dizia querer ser arquiteta, assim de uma maneira simples foi no que me tornei”, conta ao Região de Rio Maior (Região), acrescentando: “Mas tive um momento de hesitação antes de entrar para a faculdade pois estudava música em paralelo. E confessa: “O  primeiro ano de faculdade foi bastante controverso para mim, pois senti uma falta enorme do piano na minha vida. No entanto, encontrei professores no curso que me fizeram ver que a arquitetura é bastante abrangente, e aí fui ganhando uma curiosidade extrema.

Assim se nos apresenta Ger.Fa., a pintora. Expôs pela primeira vez, em Rio Maior, em março/abril de 2015; desenho e pintura, a que chamou «Processu».

Cláudia Germano Fonseca – Ger.Fa., a pintora.

Cláudia Germano Fonseca – Ger.Fa., a pintora.

Na altura em que expôs ‘Processu’ no foyer do Cineteatro de Rio Maior não se proporcionou esta conversa. Tivemo-la bastante depois, ainda em 2015 e trazemo-la para o site do REGIÃO para que o leitor que não teve a oportunidade de a ler na edição em papel o possa fazer agora, para que conheça esta jovem Pintora da nossa terra.

Relações.

Relações.

Região – Durante o curso, juntava as habilidades artísticas com a aprendizagem da arquitetura?

Ger.Fa. – Fiz sempre por ser criativa e inventiva nos projetos académicos, misturando de alguma maneira a música e o desenho artístico nos resultados. Gostava de arriscar na representação das minhas ideias, procurar a diferença, uma diferença que mostrasse novas soluções. Durante a faculdade a minha criação artística centrou-se muito na exploração das técnicas de desenho e na compreensão do espaço em si. Desenhava muito à vista e mantive sempre um diário gráfico onde se nota as várias fases do meu traço.

A arquitetura e a minha aventura artística são muito interligadas e complementares, afirmo até que inseparáveis, pois quando penso em arquitetura realizo-a invariavelmente também com um critério artístico, e quando estou a trabalhar em alguma obra os conhecimentos profissionais ajudam-me a racionalizar o processo.

Região – Diz que esteve de Erasmus em Roma, como foi?

Ger.Fa. – Foi uma experiência bastante enriquecedora e marcante. Foi um despertar para muitos entendimentos, pessoas, arquitetónicos, artísticos.

Quando fui de Erasmus o meu diário gráfico intensificou-se. Nas tardes depois das aulas e nos fins de semana andava pela cidade na procura de ‘material’ para desenhar. Desenhava bastante, Roma oferecia-me inúmeros estímulos, desde o centro histórico à vivência da cidade, e comecei também a escrever pequenos apontamentos do que via em conjunto com os registos gráficos. Contudo, não tinha muito apreço pelos meus desenhos, foi um acontecimento caricato que mudou totalmente a relação com os meus trabalhos artísticos, um episódio que marcou a minha estada e a minha posição artística. Houve uma inundação na casa onde morava e os meus cadernos ficaram ensopados, deixando todos os desenhos distorcidos com as manchas de tinta espalhadas pelas folhas. Nesse dia, olhei para os meus trabalhos e achei-lhes um significado diferente, gostei bastante. A partir daí nunca mais me preocupei em registar fielmente o que via porque afinal algo faltava para ter significado. A partir desse dia passei a preocupar-me apenas com o significado dos meus trabalhos.

Trovoada 3

Trovoada 3

Região – Porquê Ger.Fa.?

Ger.Fa. – O meu nome artístico Gerfa não tem muito que explicar, é a junção dos meus últimos nomes. Foi apenas uma maneira de não assinar o meu nome completo e de não remeter os meus trabalhos diretamente para a minha pessoa. Assim posso ter um nome totalmente dedicado ao trabalho artístico, não saturando o meu nome próprio que já tantas vezes uso.

Região – Como define o seu estilo de pintura? É espontâneo ou uma opção?

Ger.Fa. – Não considero que tenha um estilo definido. O meu grande objetivo é conquistar o meu próprio traço, que todos facilmente reconheçam. Ter um trabalho artístico completamente próprio, mas isso não implica que ele se afirme totalmente num estilo, será sempre variado, muito embora pesem e notem sobre ele os artistas e movimentos que admiro.

Não posso dizer claramente que o que crio seja espontâneo. Tudo parte de uma situação, algo que observo, leio ou oiço e me desperta interesse. Normalmente escrevo um texto antes de passar ao desenho, mais raramente tenho situações ao contrário. Redijo um pensamento ou raciocínio e elaboro uma composição gráfica sobre eles. Algumas vezes é algo mais abstrato, como uns trabalhos que tenho de Poesia Visual, que passa por relacionar uma expressão gráfica com uma palavra, outras vezes são desenhos mais representativos.

Porém por vezes faço trabalhos muito diferentes, resultado de experiências que me surgem à ideia. Algumas avançam e dão origem a mais, outras nem por isso e para mim é um avanço, pois já sei que por aquele caminho não resulta.

Posso dizer então que o meu trabalho artístico está mais perto da opção, pois dedico muito tempo à busca do significado que irá compor a história dos desenhos.

Ruíns IV e V.

Ruínas IV e V.

Região – Há algo que a inspire em particular?

Ger.Fa. – É um pouco cliché, mas a minha inspiração particular é a natureza. Quando tenho encomendas específicas, tomo como inspiração o tema proposto pelo cliente, mas em geral é nos retratos do meio natural que o meu traço se vai personalizando.

Gosto de andar pelo campo em busca de curiosidades, formas intrincadas, paisagens peculiares, de algo que me desperte a criatividade. É na natureza que encontro grande parte dos pensamentos que compõem os meus trabalhos, frases ou textos simples que componho e depois ilustro. Muitas das vezes ando no campo para soltar o traço, desenhar flores, nuvens, árvores, sombras… tento desembaraçar a mão nessas formas sem pensar muito e depois em casa reflito um pouco sobre os desenhos que fiz. Nem sempre dá resultado, mas quando corre bem componho várias histórias sobre esses passeios.

Para mim a natureza é uma inesgotável fonte de inspiração, passo muitas vezes nos mesmos lugares e levo para casa quase sempre uma história para desenhar. Nunca vejo a paisagem de forma igual, uma luz diferente, um pormenor pontual em que ainda não tinha reparado. Sinto que os sítios envelhecem ao meu ritmo, é talvez por isso que para mim é sempre diferente.

Região – Que projetos tem para a sua pintura para além das exposições? Procura integrá-la em projetos que passem, por exemplo, por grandes painéis em cidades, vestuário, etc.?

Ger.Fa. – As ideias para integrar a pintura na arquitetura são bastantes, tantas que ainda não consegui chegar a um ponto concreto. Intervir numa cidade, seja em que escala for é uma responsabilidade. Gostaria muito de ver um trabalho meu num espaço público, mas penso que primeiro devo resolver as minhas dúvidas e experiências no espaço do meu estúdio. Talvez um dia elas cresçam tanto que por não caberem nele terei de as colocar na cidade. Seria um ótimo argumento de princípio.

Tenho um pequeno projeto relacionado com o vestuário, que ainda está em fase embrionária, mas que reunidas as condições irá dar frutos brevemente.

Interpretação.

Interpretação.

Região – Já está representada em galerias de arte?

Ger.Fa. – Ainda não estou. O tempo que tive para começar a ingressar no mundo da arte a sério foi muito pouco, e começou há relativamente pouco tempo. Depois da azáfama de me tornar arquiteta e integrar o mundo laboral, estou agora a chegar ao equilíbrio para me aventurar na arte com afinco. O mundo da arte é difícil, pequeno e algo seletivo. É preciso persistência.

Espero ter oportunidade sempre que possível,  de expor os meus trabalhos nas galerias do concelho.

Entretanto, tenho o meu blog e a minha página de facebook, que já são seguidos por bastantes simpatizantes. No meu blog: www. estudiogerfa.blogspot.pt , vou colocando semanalmente os trabalhos que estou a desen-volver e na minha página de facebook: Gerfa, partilho esses mesmos trabalhos e estou em contacto direto com as pessoas interessadas.

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Ilustramos a entrevista com alguns trabalhos de Cláudia Germano Fonseca, selecionados pela própria Ger.Fa.

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