Combater a doença ou proteger a saúde?

Combater a doença ou proteger a saúde?

por Garcia Cruz

A diabetes afecta já mais de um milhão de pessoas em Portugal. O problema é muito sério e com tendência para se agravar.

Como diabético tipo 2, insatisfeito com a forma como sou tratado pelo SNS – Serviço Nacional de Saúde, decidi recentemente recorrer ao livro de reclamações. Escrevi nele mais ou menos o seguinte:

No século passado, quando cumpria o serviço militar, foi-me inesperadamente diagnosticada diabetes tipo 2. O caso parecia ter pouca gravidade. Vários anos depois, já na vida civil, fui então registado no SNS como diabético. Cheguei mesmo, por pouco tempo, a tomar medicação. Desde então passei a ter maior cuidado com a doença. De todos os cuidados, a auto-avaliação que regularmente fazia foi de grande utilidade. Para esse efeito, as necessárias tiras-teste eram quase sempre pedidas no balcão de atendimento, sendo aí levantadas decorridos alguns dias. Dessa forma o médico tinha até mais tempo para atender outros doentes. Hoje, num sistema em que não há pressa para atender os doentes mas em que estes são atendidos muito apressadamente, mais se justificaria a simplificação na obtenção das ditas tiras.

Presentemente os doentes diabéticos têm apenas direito a 2 consultas isentas de taxas moderadoras por ano. “Tudo bem!” Têm apenas direito a 200 tiras teste por ano (média pouco superior a meia tira por dia). Está mal. Têm muitas vezes imensa dificuldade em conseguir uma consulta em tempo útil. Está mal. A hemoglobina glicada que idealmente devia ser doseada de 3 em 3 meses, passou a sê-lo, em muitos casos, apenas uma ou duas vezes por ano. Está mal. Não existe, muitas vezes, um médico atribuído de forma duradoura. Está mal. O número de diabéticos não pára de aumentar. Está muito mal.

No meu caso, o resultado de tudo isto, foi passar de níveis de hemoglobina glicada, por vários anos com valores de 6.1 e 6.2 para 6,8 na última análise (corresponde a uma glicémia média de 148).

A maioria dos diabéticos não tem a noção de quais as complicações e perigos de uma diabetes mal controlada. Acredito mesmo que a maioria deles tenha uma diabetes mal controlada, mesmo os que fazem insulina. Fazer regularmente testes de glicémia funciona como alerta e o alerta, para estes doentes, devia ser a palavra de ordem. É pena que a palavra de ordem para o SNS seja a irracional contenção de despesa. É pena que que neste país a saúde dos portugueses seja menos importante que a saúde das instituições bancárias.

A diabetes não dói e não me sinto doente. Isto é o que vai na cabeça da maioria dos diabéticos ainda “saudáveis” (e também dos outros). É melhor investir em medicação ou em melhor avaliação (também é prevenção)? Não compliquem mais as coisas.

Espero há muito tempo por uma consulta (não tenho podido avaliar a glicémia). Possivelmente o médico irá agora tentar prescrever-me um qualquer comprimido para que a doença fique mais controlada. É esta a lógica do sistema. Daqui por alguns anos, se não for o melhor “médico” de mim mesmo, talvez me aumentem a dose desses comprimidos sem preocupação das contra-indicações daí decorrentes. Depois, se o problema se agravar ainda mais, então vem a famosa insulina com todas as tiras teste que eu queira. Isto se eu tiver ainda condições e vontade para viver a festa da vida. Caso contrário, perdido o apoio para a vida, talvez então me sobre o apoio para a morte.

Nota: Este texto foi escrito em desconformidade com o novo acordo ortográfico.

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