Consumismo e recursos naturais

Consumismo e recursos naturais.

Coordenação e texto de Tomás Duarte Ferreira | nairofer@gmail.com

É relativamente consensual que o consumista compulsivo busca no consumo desregrado de bens, serviços e produtos a realização pessoal. Ele é uma vítima do marketing e da publicidade, embora disso nem sempre tenha consciência. Comprar é uma preocupação que o absorve e domina e, quanto mais compra, maior é a vontade de comprar. Se dispõe de recursos limitados para pagar o que deseja adquirir, entra em depressão, fica revoltado e pode mesmo chegar a constituir um perigo para a sociedade em que se encontra inserido. Em última análise pode afirmar-se que o consumismo é um estado de saúde desviante que necessita de tratamento, para que a paz possa voltar ao espírito do paciente proporcionando-lhe novamente a felicidade perdida.

Consumismo e belicismo encontram-se na raiz da pressão sobre os recursos naturais, manipulados e transformados pela sociedade industrial em bens materiais de consumo.

O consumista compulsivo não tem consciência dos efeitos ambientais negativos, nem tão pouco considera os impactos energéticos, ambientais, culturais, sociais e económicos que envolvem o ato de consumir.

A procura é, sistematicamente, induzida pelo fascínio publicitário sempre sabiamente orientado no sentido de estimular o desejo do consumidor. Porém, restringir a quantidade de bens materiais à nossa disposição não é sinónimo de desfrutar de uma menor qualidade de vida. A frugalidade nos consumos e o acerto nas escolhas, proporcionam um bem-estar maior do que aquele que, pontualmente, é experimentado pelo consumo compulsivo. Ancestrais civilizações asiáticas souberam minimizar a pressão sobre o meio ambiente, adotando hábitos de consumo racionais. A frugalidade valorizava mais o uso do que a posse, o que significava aproveitar as disponibilidades existentes promovendo a solidariedade. De facto, para quê comprar um filme, por exemplo se, havendo a possibilidade de o alugar, ele pode ser visto por muitas outras pessoas! Sendo constante a pressão sobre recursos naturais como a água, o solo, a floresta, etc. é inevitável o aumento do risco da conflitualidade, e até a propagação da violência, entre sociedades e grupos sociais, mercê da necessidade do acesso a esses recursos. A redução voluntária da procura de supérfluos exige consciência ecológica, sentido de responsabilidade e de justiça, qualidades que, nos tempos que correm, não parecem existir em excesso na espécie humana habituada como está a satisfazer impulsos consumistas, sem grande esforço. Na ausência desses valores é necessário atuar por meio de desincentivos económicos pois, como sói dizer-se “o que mexe no bolso dói no coração“, máxima que, nos últimos tempos vem entrando nos nossos hábitos e que, por enquanto, tem sido suportada sem grandes queixumes, talvez porque comece a haver consciência de que as necessidades básicas não têm sido coincidentes com a procura exagerada de bens materiais de consumo.

Compatibilizar a ecologia e a economia e realinhar, pontualmente, incentivos económicos em função de critérios ecológicos e de sustentabilidade, pode provocar as ambicionadas mudanças na direção do consumo sustentável. As fontes clássicas, e eficazes, de abastecimento das consciências continuam a ser o susto, o choque e o desastre, e a sua dramatização é sempre eficaz sobretudo se envolta na iminência de desastre, colapso ou tragédia. Uma crise energética ou a carência grave de recursos hídricos, como sucedeu em 2017, por exemplo, podem despertar as consciências e a eficácia na redução de desperdícios de consumo. Apenas é necessário serem persuasivamente divulgadas, e complementadas por apelos ao comportamento individual de cada um, condição “sine qua non” para atingir objetivos passíveis duma solução sustentada, para resolver a situação em confronto. Na falta de resultados palpáveis uma eventual sobretaxa transitória, que em Portugal lamentavelmente costuma passar a definitiva, também pode ajudar. A situação a que se chegou não deixa muitas alternativas o que, infelizmente, parece que muitos disso ainda se não aperceberam, continuando a contribuir irresponsavelmente para a tragédia que se avizinha. A combinação, simultânea, de ações coercivas e educativas, produz efeitos surpreendentes na mudança e na correção de hábitos de consumo, sobretudo se os que patrocinam tais iniciativas forem um exemplo o que, convenhamos, também nem sempre acontece… A regulação do uso e acesso aos recursos naturais deve ser aperfeiçoada por normas adequadas, que instituam critérios justos de garantia de acesso. Caso contrário verificar-se-á o aumento de injustiças, e a iniquidade perversa no acesso a tais recursos pode ter consequências imprevisíveis.

O cidadão responsável, e ecologicamente consciente, promove a transformação cultural disseminando valores humanos construtivos, de modo a promover a harmonia e a paz social, sensibilizando ao mesmo tempo a consciência de cada um, para os impactos de que, num contexto ambiental, as ações individuais podem revestir-se. Para adquirir consciência ecológica é necessário integrar os pressupostos da ecologia energética que, como se sabe, trata do estudo das transformações energéticas no seio duma comunidade ou de um ecossistema como sucede, por exemplo, na fotossíntese sem a realização da qual a vida das plantas não seria possível, e a dos seres humanos também não.

Ecologizar isto é, chamar a atenção para a importância dos princípios ecológicos, é tarefa prioritária para assegurar uma melhor qualidade de vida no presente e no futuro.

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