Desafios para uma Igreja renovada.

Desafios para uma Igreja renovada. Terá o Papa Francisco, força, para levar por diante a sua renovação?

Artigo de opinião de João Teodoro Miguel

Começo este artigo, citando o Papa Francisco: “O catolicismo é uma religião agora ‘moderna e razoável’, que passou por mudanças evolutivas. É hora de deixar toda a intolerância. Devemos reconhecer que a verdade religiosa evolui e muda. A verdade não é absoluta ou imutável. Mesmo ateus reconhecem o divino. Através de atos de amor e caridade, o ateu reconhece Deus, bem como redime a sua alma, tornando-se um participante ativo na redenção da humanidade.”

Getty images, com a devida vénia.

As polémicas recentes sobre as palavras do Cardeal D. Manuel Clemente, sobre a abstinência sexual que os casais em situação considerada irregular pelos padrões eclesiásticos devem manter, veio trazer à luz do dia, um problema que a Igreja vive e, tarda em clarificar junto dos católicos.

Aliás, se alguém com responsabilidade clerical aconselha os Católicos recasados a abster-se de ter relações sexuais, vai naturalmente levar ao descrédito das intenções de renovação da própria Igreja. Igreja, que está a ser alvo de uma mudança personificada pelo Papa Francisco.

No nosso país, se não estou enganado, foi a Arquidiocese de Braga a primeira a falar sobre este tema, tendo outros bispos também seguido esse trilho, mas, cada um ao seu jeito e nem sempre de forma clara e agregadora. Será um problema na forma e modo de comunicação quando chegou a vez do Patriarcado de Lisboa, fazer tal comunicação? Foi a própria comunicação social e as redes sociais que criaram esta polémica?

Não é minha intenção julgar nesta crónica quem quer que seja, no entanto, esta polémica levou-me a procurar mais informação sobre esta temática, que divide a própria Igreja Católica.

Entre outra documentação, li com redobrada atenção a Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris laetitia do Santo Padre Francisco, sobre o Amor na Família. É uma exortação que recomendo que seja lida. São nove os Capítulos e, 272 páginas onde se abordam as mais variadas áreas estando repletas com ensinamentos profundos sobre diversos temas que desafiam e aconselham a humanidade a ser mais tolerante, mais humilde e mais atenta às mudanças que qualquer sociedade enfrenta no decorrer dos séculos.

É no Capítulo VIII que se aborda a temática que veio causar esta polémica: Acompanhar, Discernir e Integrar a Fragilidade onde inclui também o tema «O Discernimento das Situações Chamadas Irregulares». Ora, da observação que efetuei ao longo do texto em momento algum identifiquei alguma recomendação sobre a abstinência sexual aos casais em situação considerada irregular. Esse, também não é o entendimento de muitos responsáveis pela Igreja.

Na já citada Exortação Apostólica Amoris laetitia, o Papa Francisco sugere a eventualidade de se percorrer um caminho de discernimento, onde se considere a possibilidade de acesso aos sacramentos por parte de pessoas recasadas.

Todavia, as resistências às mudanças preconizadas pelo Santo Padre são evidentes por parte de alguns grupos católicos, e sobretudo com maior peso e incidência também dentro da própria Igreja, que fazem questão em atacar o próprio Papa. Para eles, quem opta por viver em segunda união é considerado adúltero e, o adultério é um pecado mortal, nessa circunstância, uma pessoa em pecado mortal não deve aceder à Santa Eucaristia e aos Sacramentos.

Convém lembrar, que a doutrina da Igreja Católica quase não mudou em dois milénios. O casamento continua a ser eterno e indissolúvel. Mas a verdade mesmo, é que os católicos se divorciam e voltam novamente a casar sensivelmente à mesma cadência que o resto da população e, quando o fazem, não acham nada de condenável nisso. Como todos nós sabemos, as igrejas do mundo ocidental estão cheias de divorciados e de casais em segundas núpcias, que vão à missa, comungam como todos os outros, apesar de tanto eles como a maioria dos padres saibam que tal não é permitido no atual paradigma da Igreja.

Sendo o Papa Francisco um dos papas mais populares e acarinhados de sempre por católicos e também não católicos, isto não invalida que na cúpula eclesiástica, Francisco provoque ódios e antipatias cada vez mais difíceis de esconder a um grupo de Cardeais, alguns deles bem identificados, que o acusam de “ensinamentos heréticos”.

Francisco, o Papa que afirmou diversas vezes, “Quem sou eu para julgar?” disse-o, referindo-se aos homossexuais. Posteriormente, também o afirmou sobre todos os temas polémicos para a Igreja, como o divórcio, o aborto, a contraceção e a eutanásia. Assim, a grande dificuldade em fazer reformas em Roma, mais propriamente no Vaticano é ter uma oposição fortíssima dentro do próprio Estado do Vaticano. É suposto que Bento XVI renunciou por não sentir forças suficientes para levar por diante a reforma da Igreja.

Nos últimos dias de janeiro foi levada a cabo uma ação de formação em Albufeira, cujo tema era: «Desafios de uma Igreja Renovada». O responsável pela área da Cultura do Vaticano, cardeal Gianfranco Ravasi, foi um dos oradores dessa jornada de atualização do clero português. Sublinhou a importância do “diálogo” enquanto “postura de uma Igreja” que quer estar permanentemente “em saída”, como salienta o Papa Francisco e disse que a “evangelização da cultura” é um dos desafios mais “ingentes” da Igreja Católica atual.

Outro dos oradores que tenho o privilégio de conhecer pessoalmente é, José Filipe Pinto; investigador em ciência política, disse aos bispos, padres e diáconos das dioceses do Algarve, Beja, Évora e Setúbal, que um católico “nunca se pode refugiar no desinteresse quando há questões problemáticas estruturantes da vida humana que estão em discussão”, e, por isso mesmo, “tem o dever de intervir a título individual e, sobretudo, a nível coletivo”.

No meu ponto de vista comungo com o José Filipe Pinto, e digo, que cabe aos católicos também debater estas temáticas e ajudar na renovação da Igreja, ajudando em simultâneo a levar por diante as pretensões do próprio Papa Francisco, porque as dificuldades em combater as acusações públicas contra Francisco têm crescido ao longo dos últimos meses.

A divulgação de uma carta aberta em setembro passado, subscrita por mais de cinco dezenas de católicos descontentes com o atual Papa, vem agudizar o ambiente vivido dentro da própria Cúria romana. Pois, contam-se entre os subscritores um Cardeal, um Bispo e o antigo diretor do Banco do Vaticano. Entre as várias acusações, é numa em particular que surge a maior polémica: a do capítulo VIII já atrás mencionada. Explicitando que pessoas que vivem segundos casamentos ou em união de facto “podem viver na graça de Deus, podem amar e crescer na vida da graça e da caridade, e para tal podem receber a ajuda da Igreja”. A maior insatisfação da ala conservadora do Vaticano incide no ser possível que “em certos casos, isto poderá incluir a ajuda dos sacramentos”. Para eles, isso é inadmissível e intolerável.

Em jeito de conclusão, poder-se-á dizer que será muito difícil a qualquer Papa, fazer a renovação da Igreja. Tal, como é difícil a um primeiro-ministro fazer reformas do Estado, quando o parlamento é constituído por deputados que defendem interesses obscuros e não o interesse público.

Rio Maior, 22 de fevereiro de 2018.

Categorias:Opinião Tags: , , , , , , , ,

Também pode ser do seu interesse:

100 mil euros para restaurar igreja histórica no Cercal 100 mil euros para restaurar igreja histórica no Cercal
Carlos Ribeiro, o diretor do Agrupamento Marinhas do Sal Carlos Ribeiro, o diretor do Agrupamento Marinhas do Sal
Papa abençoa empresários conhecidos dos riomaiorenses Papa abençoa empresários conhecidos dos riomaiorenses
Tourada anunciada para a FRIMOR 2014 causa polémica Tourada anunciada para a FRIMOR 2014 causa polémica

Responder

Enviar Comentário

© 2018 . Todos os direitos reservados.
Desenvolvido por MDS Implement Ideas.