Doação aos Religiosos do Real Convento da Arrábida

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A Doação que fez D. Ana Micaela do Nascimento aos Religiosos do Real Convento da Arrábida

No passado mês de junho, o Região de Rio Maior publicou um artigo sobre a fábrica de hábitos dos frades arrábidos de Rio Maior. Ainda sobre este tema, complementando os dados já trazidos ao conhecimento do leitor, falaremos este mês de um “instrumento de doação” datado de 4 de abril de 1794, feito em Rio Maior, no Cabo do Lugar, nas casas de morada da Doadora, onde o tabelião Teodoro Botelho Nobre se deslocou.

Estavam presentes a Doadora, Dona Ana Micaela do Nascimento, o aceitante, Reverendo Padre Frei José de Santa Teresa, Mestre dos Coristas no Real Convento de Mafra, procurador dos Frades Arrábidos, o Prior Frei João da Cunha Guedes e as testemunhas José Botelho da Fonseca, António Félix, António do Carmo de Figueiredo, João Batista dos Santos e Domingos Carvalho Pestana, todos residentes em Rio Maior.

A Doadora, começou por declarar que era “movida pela devoção ao Padre São Francisco e com muita especialidade aos religiosos da Província da Arrábida”, aos quais “seu defunto marido, José Gomes de Carvalho” já desejava fazer esta doação.

Da doação constava, as casas de morada de D. Ana Micaela do Nascimento, no Cabo do Lugar, “com sua capela da Senhora Santa Ana” e “com uma cerca murada junto às ditas casas”; “um lagar de azeite e uma terra, tudo pegado com a dita cerca”; cinco cântaros de azeite todos os anos para iluminar o Santíssimo Sacramento na igreja do Hospício; as oliveiras que são património da Ermida de Santa Ana; “um pinhal chamado da Serra” na Quinta do Abu [sic]; e todo o dinheiro necessário para os religiosos fazerem as suas “acomodações”.

O objetivo desta doação era “para o fim de se fazer a fábrica de buréis visto ser abolido o hospício de Minde e passar a fábrica para esta terra” de Rio Maior.

Em contrapartida, os aceitantes eram obrigados a ter a Doadora como Padroeira enquanto fosse viva, a permitir que ela ocupasse um quarto junto à capela, onde pudesse ouvir missa e comungar, e, posteriormente, a dizer uma missa todos os domingos e feriados por alma da doadora, do marido e dos defuntos de ambos.

Julgo este documento importante por nos ajudar a datar a chegada dos frades arrábidos a Rio Maior. Atendendo a que o procurador se deslocou de Mafra a Rio Maior, somos levados a pensar que em abril de 1794 os frades ainda não se tinham radicado em Rio Maior. E sendo preciso fazer “acomodações” , é provável que o não tivessem feito de imediato. Mas se tivermos como referência este ano de 1794, ano da doação, como início e o de 1834, em que foram extintas as ordens religiosas masculinas, isso dá-nos um período de cerca 40 anos de existência da fábrica de buréis e dos frades arrábidos em Rio Maior.

Importante também para compreendermos que o facto de a casa doada possuir uma capela, “a capela da Senhora Santa Ana” explica a razão por que o Hospício era designado por Hospício de Santa Ana.
Para comprovar esta minha afirmação, recorro a três assentos paroquiais, de 1804, 1815 e 1831. No Livro de casamentos da freguesia de Rio Maior, consta que em julho de 1804, o Reverendo Padre Frei Manuel de Santo António “Regente do Hospício de Santa Ana” deste dito lugar, oficiou um casamento na Igreja do Santíssimo Sacramento que serve de Paroquial. Em maio de 1815, na Igreja do Santíssimo Sacramento que serve de Matriz, foi testemunha de um casamento Frei José de Santa Ambrosina [?], “religioso Arrábido e Regente do Hospício de Santa Ana”. E, em 24 de setembro de 1831, Ana Maia Rosa [1806-1855], natural de Rio Maior e Gerardo José, natural da cidade da Guarda, casaram na “Capela e Hospício de Santa Ana”. Este casal radicou-se na Azambuja, pertencendo a noiva à família Maia.

Espero que este “instrumento de doação” possa servir para ficarmos a conhecer com mais rigor a História de Rio Maior.

Assinaturas dos intervenientes nesta doação e das testemunhas presentes (1794).

Assinaturas dos intervenientes nesta doação e das testemunhas presentes (1794).

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