Inês Henriques e Jorge Miguel de ouro

Inês Henriques e Jorge Miguel – uma dupla vencedora

Inês Henriques e Jorge Miguel, o seu treinador de sempre.

O feito de Inês Henriques ao sagrar-se Campeã do Mundo e Recordista Mundial de 50 km Marcha foi tão impactante nas comunidades portuguesas e para o orgulho nacional, que esta entrevista conduzida por Catarina Abreu dispensa preâmbulo. Está publicada na edição em papel nº 1508, de 1/9/2017, do jornal Região de Rio Maior.

REGIÃO – Como é que se chega a uma medalha de ouro, ainda mais numa prova oficial nova no Campeonato Mundial de Atletismo, em femininos?

Inês Henriques (IH) – Tudo começou em 1992. E de alguma forma foi muito rápido. Em 1997 fui à primeira prova internacional, no Campeonato do Mundo de Juniores. As coisas foram-se proporcionando. Eu envolvi-me tanto com a Marcha e o Atletismo que queria sempre mais e melhor. Ao longo dos anos fui arrecadando muito boas classificações. Até agora o meu melhor momento tinha sido a medalha de bronze na Taça do Mundo em Chihuahua (México) e o outro foi há dez anos quando obtive o 7º lugar no Campeonato do Mundo (em Osaka, no Japão).

Tinha um currículo vasto mas eu e o Jorge Miguel queríamos fazer algo diferente. Ele fez-me o desafio, em novembro, de tentar fazer os 50 km, tendo em conta que iriam reconhecer o primeiro recorde do mundo e se nós conseguíssemos iríamos ficar na História.

O objetivo não era só estabelecer o recorde do mundo, mas superar a melhor marca do mundo. A exigência era grande e o tempo de preparação era curto, menos de dois meses. O Jorge Miguel disse-me: “Tu não vais só fazer 50 km, tu vais fazer 50 km para recorde do mundo!”

Ele lá me convenceu que era possível e em Porto de Mós fiz o tempo de 4:08:25. Ficámos satisfeitos mas com algum sabor amargo porque o objetivo era fazer menos de 4:06 para estar no mundial juntamente com os homens e mudar o panorama mundial para as mulheres terem direito à prova dos 50 km. Demonstrar a outras mulheres que se eu tinha sido capaz, elas também eram capazes.

Decidimos participar muito em cima da prova. Isto porque eu não tinha a marca de preparação olímpica e eu sobrevivo com a bolsa de preparação olímpica. Tendo em conta que o clube não me paga e o subsídio que a DESMOR me dá é muito baixo, sem aquela bolsa era impossível eu sobreviver. Só fizemos esse pedido depois de 4 de junho. Ficámos à espera. Várias pessoas disseram que eles não iam permitir mas tendo em conta que já tinham reconhecido o recorde do mundo, eu achava que merecia uma resposta. Um sim ou um não.

Enquanto não me disseram não, eu continuei a treinar para os 50 km. Eu e o Jorge Miguel colocámos um limite até ao dia 21 de julho. Se não fosse possível ir aos 50 km revertíamos esse treino para pôr mais ritmo nos 20 km. Mas algo me dizia que era possível. Eu continuei sempre a treinar. Às vezes as pessoas perguntam como é que eu tinha tanta energia para fazer treinos tão longos sem ter a certeza se a prova ia ser aprovada! Eu pus na minha cabeça que ia fazer a prova dos 50 km. Não podia ser de outra forma. Foi a persistência, foi a teimosia!

Depois, quando recebi a notícia, para mim a principal vitória foi termos conseguido que a prova das mulheres fosse introduzida. Eu não estava à espera de tanto. Eu tinha feito o pedido para estar numa prova mista, a correr com os homens, em que não ganhava nada com isso. Nós queríamos demonstrar que era possível, que as mulheres podiam estar ali e podiam fazer os 50 km. E tive muito mais do que o que estávamos à espera. E essa para mim é sem dúvida a primeira vitória e espero que agora outras mulheres façam os 50 km para que daqui a dois anos possamos ter uma competição com mais de 20 ou 30 atletas. Nós fomos as primeiras 7 guerreiras que lutámos para alguma alteração.

Há quem diga que é injusto, mas injusto era o facto de as mulheres não poderem fazer esta prova. Os 50 km só entravam no Campeonato sob pressão ou não entravam. Foi assim. De alguma forma esta medalha de ouro foi o corolário desta luta toda, desde novembro até agora e todos os outros 25 anos de trabalho que estão por trás.

Dizíamos a brincar que eu, como ia fazer 25 voltas, era como se fosse uma por cada ano de atletismo que eu tenho. Foi a nossa persistência e a teimosia porque se não fosse assim eu não teria conseguido treinar para uma prova que eu não sabia que iria existir. O sucesso também se deveu a uma ótima gestão da prova, com o Jorge Miguel a travar-me muitas vezes e a colaboração do Nuno que foi fantástica. Eles tentaram ser um só para me darem as indicações que eu necessitava. Eu cheguei aos 30 km e só os ouvia a eles. Nos últimos 200 metros foi mesmo aquele bum! Eu vou conseguir mesmo fazer isto! E não foi só ganhar! Foi ganhar com o recorde do mundo e com menos de 4h06 que era o que eu estava a dever desde janeiro.

REGIÃO – Essa medalha de ouro foi uma vitória não apenas para Portugal, como obviamente foi, mas também para o atletismo feminino, não?

IH – Sim, um pouco como a Rosa Mota fez há uns anos atrás. Até foi engraçado porque depois da prova eu e a Rosa estávamos a falar e um brasileiro reconheceu a Rosa, virou-se para nós, sorriu e disse “Isto só podia ser coisa de portuguesa”, porque fomos corajosas para enfrentar uma prova dura. Mas eu achava estranho porque é que os homens podem e as mulheres não podem! Porque é que os maratonistas e as maratonistas podem e nós não podemos fazer 50 km! Essa foi a maior conquista para as mulheres da Marcha e para o Atletismo mundial. Eu e o Jorge achávamos extremamente injusto poderem estar seis homens presentes no campeonato e só poderem estar três mulheres (só nos 20 km). E nós em Portugal tivemos uma luta tão grande em 12 anos porque todas queríamos lá estar no campeonato e só três podíamos ir quando todas éramos campeãs por equipas. Todas merecíamos lá estar mas era muito difícil a gestão, tanto física como psicológica. Ninguém queria tirar o lugar de ninguém mas só queríamos estar lá. Na Marcha, não estar nos campeonatos ou nos Jogos Olímpicos pode significar sair da preparação olímpica que não implica só a bolsa mensal, mas também o dinheiro para os estágios para a nossa preparação, sobretudo estágios em altitude, que são mais dispendiosos. Sem isso ficamos sem chão. Neste campeonato só tivemos duas atletas, eu nos 50 km e a Ana Cabecinha nos 20 km. De certa forma também passei para os 50 km para poder deixar mais uma vaga para as miúdas mais novas.

REGIÃO – Quantas horas de treino faz em média por dia, quando se está a preparar para alguma competição importante?

IH – Não contabilizamos tanto em horas. Eu faço 12 a 13 sessões semanais. O treino da manhã normalmente demora mais tempo, venho treinar às 9h e muitas vezes só saio às 12h. Não é só o tempo que estou a marchar. É o tempo dos alongamentos, o tempo do reforço muscular, o tempo da recuperação… Há um conjunto de coisas que nós temos de fazer. Tendo em conta que eu já tenho 37 anos há aspetos que eu não posso descurar.

REGIÃO – O ditado “A idade não perdoa” não se aplica à Inês. Como é que explica isso?

IH – O ano passado coloquei como objetivo refletir, após os jogos, sobre continuar ou não no atletismo. Já tinha a minha licenciatura em enfermagem concluída. Se verificasse que não queria continuar, fosse porque o corpo já não dava ou porque já não sentisse prazer no que estava a fazer, estava preparada para parar com o atletismo e investir na outra parte da minha vida. Mas tendo em conta que eu aos 36 anos bati 3 vezes o meu recorde pessoal aos 20 e ainda sentia muito prazer no que estava a fazer, decidi continuar. Mas lá está, a partir de uma certa idade há aspetos de prevenção de lesão que não podemos descurar. Mas este ano, a treinar para os 50 km, foi o ano em que eu recorri menos à fisioterapia. Mantenho os mesmos cuidados mas pelo facto de andar a ritmos mais baixos não tenho tantos problemas. Estes normalmente aparecem quando ando a ritmos mais elevados. Tenho sempre o cuidado da massagem e recorro à fisioterapeuta Susana quando tenho qualquer dorzinha mais elevada. O ano passado, antes do Grande Prémio de Rio Maior eu estive parada, porque tive um problema no músculo isquiotibial. Este ano não precisei de parar dia nenhum.

REGIÃO – E quanto à licenciatura em Enfermagem?

IH – Terminei em 2014. Depois de dez anos de muita luta porque praticamente fiz o curso durante 3 meses por ano e estava sempre a recomeçar tudo. Estava muito tempo sem ir à escola e a ter de rever tudo. Depois nos estágios, estamos a trabalhar com seres humanos e não podia haver erros. Sempre que tinha dúvidas eu preferia perguntar à enfermeira e esclarecer bem as questões do que fazer algum erro.

Tanto os meus professores na Escola Superior de Saúde de Santarém como os enfermeiros que me acompanharam nos estágios compreendiam a minha situação. Além disso os utentes que acompanhei nesses estágios faziam-me sentir recompensada porque agradeciam a atenção que eu lhes prestava. Cheguei a ter utentes que me disseram “Muito obrigada! Foi das melhores enfermeiras que tive!” É verdade que durante o estágio nós temos menos utentes do que em funções de trabalho real, o que nos permite dar mais atenção a cada situação. Não é descurar os outros enfermeiros, mas sentia-me muito orgulhosa por dizerem bem de mim.

REGIÃO – Porquê a Enfermagem?

IH – Eu gostava de ter tirado Fisioterapia. Contudo isso ter-me-ia obrigado a deslocar-me para Lisboa e seria muito difícil conciliar com os treinos de atletismo. Por isso optei por Enfermagem, na Escola Superior de Saúde de Santarém, aqui perto, o que possibilitou conciliar o atletismo com a realização da licenciatura.

Agora quero ver se consigo conciliar a enfermagem com o desporto. Também tenho feito outras formações porque o saber não ocupa espaço. Fiz Quiromassagem e estou a fazer um curso de Massagem Terapêutica Desportiva (que tive de interromper por causa do Campeonato do Mundo de Marcha de 50 km mas que vou retomar), para ter ferramentas à minha disposição para continuar dentro da parte desportiva (quando deixar o atletismo).

REGIÃO – No final da prova dos 50 km do Campeonato Mundial em Londres, quando se apercebeu que era campeã e que tinha batido o seu próprio recorde, após todo aquele esforço, qual era o sentimento que “falava” mais alto, o cansaço ou a felicidade?

IH – Os últimos quilómetros foram duros. Nesta prova o raciocínio manteve-se até ao fim e eu fui sempre fazendo contas. Mas nos últimos 4 km, nas últimas 3 voltas, tive de fazer uma gestão diferente porque em termos musculares estava a ficar muito débil. Vi que ainda tinha algum tempo de vantagem para fazer menos que as 4 horas e 6 minutos (que era o objetivo colocado) e então tive de diminuir um bocadinho o ritmo para chegar mais ou menos bem porque também queria desfrutar da parte final. Não queria chegar ao fim e cair para o lado, como é óbvio! Mas, fazer aqueles últimos metros, em que todo o público estava a bater palmas… Estavam lá muitos portugueses, que foram ver a prova e dirigiram-se ao circuito para me aplaudirem… foi fantástico! Lembro-me que fui buscar uma bandeira e aí foi tentar ir até ao fim, mas aquela sensação de “eu vou conseguir concretizar tudo isto”, “eu consegui concretizar todos os objetivos”, foi a prova da minha vida, estava a conseguir alcançar um sonho, ganhar uma medalha era fantástico mas ganhar uma medalha de ouro com o recorde do mundo era ainda melhor!

E depois o Jorge Miguel, que nem é nada dessas coisas, furou toda a gente e foi lá abraçar-me na meta e conseguimos! Foi uma vitória minha e dele e também de toda a equipa que trabalha connosco. Não podíamos fazer isto sem a ajuda do complexo desportivo, fisioterapeuta, médicos, toda a equipa.

REGIÃO – Como foi a reação da família e dos amigos?
IH – Estavam todos felizes. A minha irmã dizia que o telefone não parava. A RTP queria ir fazer uma reportagem em casa dos meus pais, no dia em que chegámos de Londres, mas a minha mãe disse logo que não podia ser, que estava a preparar o almoço para a família. Eles sempre se mantiveram um pouco à parte, sem acompanharem muito de perto a minha atividade mas sempre me deram muito apoio. São uns pais fantásticos, que me deram uma formação fantástica e provavelmente por isso é que eu sou assim tão teimosa, tão persistente e trabalhadora. O meu pai é sempre um homem rijo. Eu perguntei-lhe: “Então viste a prova?” E ele respondeu: “Achas?!” Mas o Nuno virou-se e disse “Qual quê?! Então quando foi a Taça da Europa ele estava ligado ao computador e nem saía de lá!” Ele não vai ver o Grande Prémio de Rio Maior porque as vezes que foi ver correu mal e então acha que se o fizer vai voltar a correr mal, mas está sempre agarrado ao telefone a falar com a minha mãe para saber como está a correr. Eles estão orgulhosos do que eu fiz mas não são muito expansivos.

REGIÃO – Agora que é campeã mundial como é lidar com a fama e com a atenção de que é alvo da parte dos portugueses em todo o mundo e dos meios de comunicação social?

IH – A Inês Henriques vai permanecer a mesma de sempre. Isto foi uma conquista de muitos anos mas não quero alterar a minha forma de ser e estar e vou continuar a trabalhar para alcançar os próximos objetivos. Não é fácil gerir isto tudo. Nunca tive tanta solicitação. Em janeiro, quando bati o recorde do mundo tive alguma atenção, mas agora ainda tenho mais. Tenho recebido imensas mensagens de todo o mundo a darem-me os parabéns. Eu gosto de responder a todos.

Aquilo que eu fiz foi fruto do meu trabalho e esforço. Não me sinto especial por isso mas fico lisonjeada quando falo com pessoas que estou habituada a ver na televisão e que admiro e que agora dirigem-se a mim já conhecendo o meu percurso no atletismo ou quando as pessoas passam na rua e me vêm cumprimentar! É isso! (Riso desconcertado com brilho no olhar).

REGIÃO – Quer deixar uma mensagem para os jovens atletas que estão a iniciar essa carreira?
IH – O que eu demonstrei é que nós, com algum talento, que temos de ter algum, mas com força de vontade, persistência e muito trabalho, conseguimos chegar ao topo da pirâmide. Às vezes temos de recuar. Isto não é só subir escadas. Muitas vezes tive de descer alguns degraus para conseguir voltar ao mesmo degrau onde já tinha estado e para subir um foi preciso muito esforço. Temos de tentar ter apoio de quem está à nossa volta, quem quer trabalhar connosco e temos de trabalhar muito. Só assim se consegue chegar ao topo como eu cheguei.

REGIÃO – E projetos para o futuro?
IH – Eu e o Jorge Miguel temos um projeto a longo prazo mas só se o meu corpo o permitir e se continuar a sentir prazer no que estou a fazer, que é estar nos Jogos de Tóquio, seja nos 20 km ou nos 50 km, porque ainda posso fazer umas coisas engraçadas nos 20 km e demonstrei isso este ano.

Pretendo terminar a carreira no Grande Prémio de Rio Maior em 2021, com 41 anos, que considero uma boa idade para ir fazer outras coisas na vida.

A curto prazo ainda não temos planos. Para já queremos desfrutar deste momento, acalmar, descansar um pouco, coisa que ainda não consegui fazer, e depois sentarmo-nos e planearmos o que vamos fazer na próxima época, mas tudo com tranquilidade.

Jorge Miguel – o treinador por trás das grandes marchadoras portuguesas

Jorge Miguel, o treinador de sempre de Inês Henriques.

REGIÃO – Jorge Miguel, como é que se sente enquanto “pai” de mais uma atleta campeã mundial?

Jorge Miguel (JM) – Eu sinto que de alguma forma estou a viver algo parecido com o que vivi há 27 anos, quando a Susana Feitor foi Campeã do Mundo de Juniores. Quando vinha para cá vinha a comentar com a minha mulher que não é normal mas às vezes repetimos situações na nossa vida. Eu sinto algo de diferente. Porquê? Porque enquanto com a Susana Feitor eu sentia que estava perante uma jovem com muito talento, uma pessoa rara, daquelas que excecionalmente aparecem, já a Inês é uma pessoa que tra-balhou uma vida inteira, que nos 20 km de Marcha fez o seu percurso. De repente tivemos uma oportunidade, que por acaso fui eu que a vi e falei-lhe nisso e agarrámo-la com ambas as mãos!

Sabe, a vida é feita de oportunidades. O meu pai, que Deus tem, dizia: “Toda a gente tem um momento em que a sorte lhe bate à porta. Alguns fecham a porta. Não se apercebem que é a sorte que está a bater.” E eu consegui ver que este era o momento de sorte da Inês, falei-lhe nisso e ela agarrou esta oportunidade com ambas as mãos e depois, quando ela terminou a prova e eu a abracei, sem termos nada combinado, ao mesmo tempo dissemos: “Conseguimos!”

Portanto é essa sensação que eu tenho. Há 27 anos, alguém, fruto de um talento extraordinário conseguiu e agora, alguém, fruto de uma vontade enorme de trabalhar também conseguiu!

REGIÃO – Qual é o seu segredo para produzir atletas com tão bons resultados?

JM – O meu segredo é que eu vivo sempre empenhado naquilo que faço. Não interessa o que vai acontecer depois. Estas festas e demasiada atenção até me fazem sentir acanhado. Quando me fazem uma homenagem até agradeço, mas às vezes até penso “o que é que estou aqui a fazer”, porque na verdade eu gosto é de estar no trabalho a incentivar os jovens para a prática desportiva, atividade que desenvolvo há muitos anos. Qualquer jovem que apareça ali na pista sabe que eu o recebo e estarei lá para o acompanhar até onde for possível. O que eu pretendo é que as pessoas se realizem e que eu próprio me sinta realizado.

No caso da Inês, mais do que no da Susana, sinto que conseguimos realizar os nossos objetivos.

Para mim o mais importante é conseguir fazer. O resto acho que é o mundo onde estamos inseridos e temos que nos adaptar a ele e naturalmente isso até nos traz alguma alegria. Quando vejo toda esta atenção à volta da Inês eu penso para mim, “bom isto é um exagero”, mas ao mesmo tempo digo “mas ela se calhar até merece” porque andou 20 e tal anos à sombra de outros que tinham todas as atenções. Este ano aconteceu o contrário. Veja o que é o destino.

REGIÃO – A sociedade só se interessa por aqueles que conseguem títulos de campeões ou conquistam medalhas, não é?

JM – Sim. Mesmo quando um atleta tenha feito um excelente trabalho só é reconhecido se conquistar um lugar de relevo.

Em 1986 quando fui convidado para ir dinamizar um programa de atletismo para a autarquia de Rio Maior, eu andei vários anos a fazer um trabalho enorme no concelho, a organizar provas de atletismo com jovens e as pessoas até diziam “aquele tipo é maluco, o que é que ele anda ali a fazer a correr com os miúdos?” Acontece que quando a Susana ganhou as pessoas às vezes encontravam-me ali no jardim e abordavam-me “Então você é que é o treinador da Susana Feitor?” “Sou”, respondia eu. “Então mas você não é o padeiro?!” E eu respondia “sim, eu sou o padeiro”. Quer dizer! Eu andei aqui 20 anos a trabalhar e nunca ninguém ligou e agora que a Susana ganha uma medalha toda a gente repara! Pois, mas essa medalha da Susana e outras que se seguiram, levou a que Rio Maior fosse aquilo que é hoje. Estes feitos que alguns atletas fazem tornam visível o trabalho que temos com todos os outros. O nosso trabalho não foi só com aquele mas com todos os outros que estão à sua volta.

REGIÃO – Qual é o estado de saúde do Atletismo em Portugal?
JM – Sempre tivemos altos e baixos. O Atletismo é uma modalidade dividida por “N” disciplinas, algumas que tiveram grande sucesso, como os grandes corredores, que a pouco e pouco foram dando a vez a outras disciplinas como o Salto em Comprimento (Carlos Calado), o Triplo Salto (Nelson Évora) e os corredores de velocidade (Obikwelu), etc. É um conjunto de disciplinas que formam o Atletismo. De há dez anos a esta parte tem sido a Marcha. Eu tenho muito orgulho porque Rio Maior é um marco nessa modalidade.

Outro dia vinha no avião e um senhor sentou-se ao pé de mim e em conversa, quando lhe disse que era de Portugal e de Rio Maior, ele exclamou: “Ah! Da terra da Marcha!”

Há outros atletas menos falados que estão em potencial. É tudo um grupo de gente que trabalha e que passa despercebida. Aquilo é uma “plantação” que existe há muitos anos.

REGIÃO – Na sua opinião, para um atleta ter sucesso o que é mais importante: querer vencer, querer trabalhar ou ser fisicamente capaz de chegar lá?

JM – Tudo é importante. Um atleta é um conjunto de muitas coisas. Sabe que eu tenho encontrado jovens que vão ali ter comigo à pista e eu digo para mim mesmo este rapaz ou esta rapariga faziam coisas extraordinárias, mas eles não querem. E tenho encontrado outros que não tendo esse talento, têm uma grande força de vontade. O ideal seria conseguirmos juntar tudo mas aí teríamos um atleta fora de série. Olhe, imagine o que seria juntarmos o talento da Susana Feitor com a vontade da Inês Henriques! Ganhava sempre! Uma tem uma coisa e chegou lá e outra tem outra coisa e também chegou lá!

REGIÃO – Quando é que começou a perceber que a Inês podia ser uma vencedora?

JM – Desde o princípio. Vi nela muitas qualidades, sobretudo aquilo que dá mais gozo num treinador, a dedicação e o não colocar as culpas no treinador quando falha. A Inês nunca fez isso. Quando falha ela assume sempre que falhou embora nós depois façamos uma reflexão sobre o que terá acontecido durante a preparação.

Há um momento em que eu disse “É agora! A Inês vai dar um grande salto!” Foi em 2007, quando ela esteve no Campeonato do Mundo e eu percebi que dentro de dois anos ela iria ganhar uma medalha.

Acontece que no ano seguinte eu vivi o momento mais terrível da minha carreira de treinador, que eu quis abandonar. Foi quando a Inês não foi selecionada para ir aos Jogos Olímpicos de 2008 em Pequim e eu achei que foi uma injustiça enorme porque havia critérios estabelecidos, escritos, que não foram respeitados por quem na altura mandava. Isso deixou-me marcas tão profundas que fui injusto com a Susana e com o Sérgio que estavam em Pequim a competir. Eu recusei-me a integrar a comitiva que foi a Pequim e não estive lá a apoiá-los, mas expliquei-lhes que não tinha condições anímicas para o fazer tal tinha sido a “facada” que eu tinha recebido por parte dos representantes da federação.

Daí para cá a Inês não conseguiu atingir aquilo que eu pensava que ela era capaz nos 20 km. Aproximou-se muitas vezes. Em 2010 no México, o seu 3º lugar foi algo extraordinário, mas foi conseguido em altitude, que é onde ela consegue atingir melhores resultados.

REGIÃO – Quer deixar uma mensagem para os jovens que querem experimentar ou que sentem vocação para o atletismo?
JM – Dia 4 de setembro, 2ª feira, vamos dar início aos treinos da nova época e estamos lá à espera deles.

REGIÃO – E planos para o futuro?
JM – Vou continuar a fazer aquilo que sempre fiz. De manhã estou com os atletas de alta competição e fazemos o treino mais específico. À tarde, a partir das 17h estou na pista para apoiar quem por lá apareça.

É evidente que não estou sozinho. Temos uma escola de formação onde a responsável é a minha filha Susana. O meu filho Paulo treina os atletas especialistas em corrida de meio-fundo e fundo. Eu vou dando apoio no que é preciso.

Se me está a perguntar em relação aos planos para o futuro relacionados com a Inês Henriques, ainda não falámos sobre isso. Este ainda é um momento de festa. Depois é que nos vamos sentar e conversar.

Entrevista: Catarina Abreu

Categorias:Grande Entrevista Tags: , , , , , ,

Também pode ser do seu interesse:

Elisabete Jacinto é madrinha de Corrida Solidária Elisabete Jacinto é madrinha de Corrida Solidária
Cerca de 100 percorreram o Cadaval de Bicla Cerca de 100 percorreram o Cadaval de Bicla
Inês, João e Pedro, a postos para os 50 km Marcha Inês, João e Pedro, a postos para os 50 km Marcha
Inês Henriques estará no Mundial de Londres Inês Henriques estará no Mundial de Londres

Responder

Enviar Comentário

© 2017 . Todos os direitos reservados.
Desenvolvido por MDS Implement Ideas.