Manuel Constantino: 80 anos, mineiro, músico e marceneiro

Manuel Constantino, senhor de uma memória prodigiosa, foi safreiro na Mina do Espadanal, é músico e marceneiro

Manuel Constantino, 80 anos de idade. Antigo mineiro na Mina do Espadanal onde era safreiro; “tirava carvão aos mineiros”, contou.
Esta é uma longa conversa com um homem de muitas vivências que hoje é marceneiro, que desde jovem é músico e que apesar de fazer 81 anos no dia 9 de dezembro mantém a sua autonomia e trabalha ativamente na sua marcenaria em Asseiceira.

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Região de Rio Maior (REGIÃO) – Tirava carvão aos mineiros? Ora explique lá isso, por favor, Sr. Manuel, que é para os leitores perceberem.

Manuel Constantino (MC) – Tirar carvão aos mineiros significa que o mineiro cortava o carvão e eu acarretava-o no carrinho. Chamavam “pirum” ao carrinho… O homem devia ter morrido há poucos anos… Veio para cá um senhor, para Rio Maior, chamavam-lhe Lisboa porque veio de Lisboa mas era Ismael, teve aí vários trabalhos e um dia apareceu lá debaixo do chão no turno do meio-dia às oito da noite, muito bem vestido e o capataz pediu-lhe para ir buscar um “pirum” e uma pá e lá foi ele por uma galeria fora (à procura de um peru!); depois disse-lhe “você vai tirar carvão a este homem” e ele respondeu “não, não, este trabalho nunca o fiz lá em Lisboa” e mal o disse largou a pá, que era sobre o quadrado, assim com uma laterais, para acarretar bastante carvão de cada vez, não era como uma pá de bico das obras. Eu acarretava a safra lá para a linha onde o carvão passava para as vagonas que o levavam para a “reação”. Na reação havia o guincho e era ali que as vagonas vinham cá para fora, para o “plano” e depois seguiam até outra secção à borda da linha, onde é hoje o pavilhão das feiras. O comboio, quando vinha da fábrica no Vale de Santarém, virava onde é agora a Escola Superior de Desporto, que lá é que estavam as agulhas do caminho de ferro.

REGIÃO – Mais tarde, quando a Mina fechou o que é que o Sr. Manuel Constantino passou a fazer?

MC – Ah! Mas quando eu saí aquilo ainda ficou a trabalhar. Entrei para lá em 1951; andei cá fora nas obras, com outros colegas… Já morreram muitos: já morreram cinquenta ou sessenta colegas que trabalharam comigo lá debaixo do chão, muitos deles eram músicos. Eu pertenci à Banda dos Bombeiros Voluntários. De vez em quando juntávamo-nos com os da Gançaria. Uma vez juntámo-nos ali todos no plano da Mina, que era assim um barracão comprido que tinha umas ripas em madeira e nós encaixávamos a roda de trás das bicicletas em cada intervalozinho e elas ficavam suspensas no ar. Tínhamo-nos juntado para irmos para o turno da noite mas começámos a tocar e a comer buchas uns dos outros e a beber… E olhe, embebedámo-nos e os responsáveis não nos deixaram entrar na mina. Se eles vissem alguém a passar do cais da Mina para ir para as galerias não deixavam, porque quem fosse por ali abaixo, a partir de certo sítio ia ao ar…

REGIÃO – Ia ao ar? Porquê?

MC – Ia ao ar porque a partir de certo sítio faltava-lhe o ar e morria.

REGIÃO – E depois da “festa” o que é que aconteceu?

MC – Apanhámos dois ou três dias de castigo, não tivemos autorização para ir trabalhar.

REGIÃO – Na Banda dos Bombeiros Voluntários de Rio Maior o que é que o senhor tocava?

MC – Eu era terceiro clarinete.

REGIÃO – Mas eu ouvi dizer que toca outros instrumentos…

MC – Tenho lá em casa dois acordeões… No fim de velho aprendi qualquer coisa com aquilo! O que é, é que agora começaram-me a doer as costas e larguei-os.

REGIÃO – Continua a tocar clarinete?

MC – Não tenho nenhum clarinete por enquanto mas estou com a ideia de ir a Ourém comprar um. Nem que seja de fibra. Em ébano é que havia de ser mas agora têm uns em fibra que é preciso ter cuidado, porque se cai ao chão pode partir-se.

REGIÃO – O senhor gosta de tocar. Aprendeu música?

MC – Aprendi quando andava na Mina! Aprendi o solfejo com um professor chamado João Fróis, cá de Rio Maior, que foi músico embarcadiço: andou mais o Alves Coelho Filho. O Alves Coelho Filho tocava acordeão e ele tocava saxofone tenor. O João Fróis andou na tropa em Cabo Verde mais o Ministro, da Asseiceira, que era assim que lhe chamavam; já morreram os dois. O João Fróis era irmão do José Luís Fróis que teve carro de praça aqui em Rio Maior. E trabalhavam os dois de alfaite, que aprenderam com o pai deles.

REGIÃO – Depois do solfejo continuou a ter aulas de música, imagino…

MC – Mais tarde o João Fróis voltou a embarcar e só quando foi o 25 de Abril é que eles deixaram de andar a tocar no mar – deviam ganhar umas coroas, penso eu… Depois veio para cá o Sr. Manuel Fernandes, que morou na Travessa do Enxerto, ali onde era uma taberna antigamente que era do João da Laura, que tinha currais lá para trás, que nessa época era para as pessoas que vinham às feiras deixarem lá o gado. O Sr. Manuel Fernandes foi o meu segundo mestre na música. Mas ele tinha uma maneira de ensinar diferente que eu, mais tarde, aprofundei já na Banda Municipal, com o maestro João Pinote, que foi o último mestre que eu tive e que me chegou a levar para o Coral e Orquestra Típica mas não gostei de lá estar e acabei por sair.

O Sr. Manuel Casimiro (do pai) como também é conhecido o Sr. Manuel Constantino, é um excelente animador e ainda hoje, nas excursões que se fazem na Asseiceira canta os hits dos velhos tempos e os atuais. Canta Luís Piçarra, António Calvário, Marco Paulo, Quim Barreiros, etc. Sempre com uma afinação impressionante… Augusto Figueiredo, que vive em Asseiceira há décadas e já lá foi presidente da Junta de Freguesia, que conhece muito bem este antigo mineiro e é de resto seu amigo, não duvida que estar-se perante Manuel Constantino é estar-se à beira de uma biblioteca viva, pelo que “é de valorizar a sua autonomia – ele construiu por suas próprias mãos a casa onde reside e trabalha pois tem aí a sua oficina de marcenaria, conservação e restauro –, o facto de ser um perfeccionista no trabalho que faz e possuir uma memória incrível”.

REGIÃO – O Sr. Manuel Constantino continua a fazer excursões…

MC – Olhe, ainda no dia 2 de julho fomos à Figueira da Foz…

REGIÃO – … Aos pastelinhos de Tentúgal…
MC – Não, esses não saboreei porque não mos deram a provar.

E a conversa foi andando, de novo em torno da música, que o Sr. Manuel Constantino também andou na Banda da Vila da Marmeleira! Mas o resto fica para outro dia.

Entrevista conduzida por: Carlos Manuel

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