Mina do Espadanal é património com futuro

Encontro das Comunidades Mineiras de Portugal em Rio Maior, no centenário da Mina do Espadanal

Tendo contado, nos painéis científicos, com a participação de José Cordeiro, professor da Universidade do Minho e presidente da Associação Portuguesa para o Património Industrial, Pedro Callapez, professor da Universidade de Coimbra, Bernardo Lemos, representante do Roteiro das Minas e Pontos de Interesse Mineiro e Geológico de Portugal e Micaela Santos, diretora do Museu Mineiro de S. Pedro da Cova, o programa comemorativo do Centenário da Mina do Espadanal (Rio Maior) foi aberto em sessão solene, no auditório da Escola Superior de Desporto (ESDRM), com intervenções da mesa de honra que era constituída pelo vice-presidente da EICEL 1920, António Moreira, a presidente do Município de Rio Maior, Isaura Morais, o presidente da assembleia geral da EICEL 1920 e coordenador das comemorações, arquiteto Jorge Mangorrinha e o diretor de Serviços de Minas e Pedreiras da Direção Geral de Energia e Geologia (DGEG), Dr. José Silva Pereira.

Da esquerda para a direita, António Moreira, Jorge Mangorrinha, José Silva Pereira e Isaura Morais.

Da esquerda para a direita, António Moreira, Jorge Mangorrinha, José Silva Pereira e Isaura Morais.

António Moreira endossou a autoria minuciosa do conjunto das iniciativas comemorativas do Centenário da Mina do Espadanal para o grande ausente naquele dia tão simbólico, por se encontrar nos “antípodas” de Rio Maior, no outro lado do planeta, em Macau onde exerce a sua profissão, e numa fase da vida pessoal em que lhe era de todo impossível ausentar-se: o arquiteto Nuno Rocha, fundador e presidente da EICEL1920, cuja ligação umbilical ao seu Rio Maior natal é a Mina do Espadanal – crê-se.

Na sua breve intervenção, António Moreira que afirmou sentirem, na Associação para a Defesa do Património, “um cada vez maior envolvimento da comunidade nos assuntos relativos ao património mineiro, à nossa história”, e que “a proximidade de todas as instituições” ligadas a esta matéria “é cada vez maior e mais profícua”, agradeceu a todos os que permitiram que a EICEL1920 conseguisse realizar o Encontro das Comunidade Mineiras: ao Município de Rio Maior “que tem manifestado grande disponibilidade”; à Junta de Freguesia de Rio Maior “com um cumprimento muito especial” ao seu presidente, Luís Filipe Santana Dias “pela colaboração que tem dado à EICEL nos trabalhos associados à limpeza” da zona envolvente do complexo mineiro; às entidades empresariais e outras, locais, que permitiram realizar as comemorações do Centenário da Mina do Espadanal com custos muito baixos para a EICEL1920, como a Sibelco que patrocina a exposição dedicada ao Couto Mineiro do Espadanal patente até setembro na Galeria dos Paços do Concelho, a empresa João Teodósio Matos Barbosa & Filhos, Lda., a Quinta da Badula e a Vinisol, a empresa Mestre Henriques, a ACCRM – Associação Cultural do Concelho de Rio Maior e a ESDRM.

A EICEL1920 registou ainda, reconhecida, o apoio recebido do Laboratório Nacional de Energia e Geologia (LNEG).

Foi muito clara da parte de Jorge Mangorrinha a exposição dos objetivos da EICEL1920 (ver síntese em baixo) quanto à preservação e salvaguarda do património mineiro riomaiorense colocando-o ao serviço do conhecimento e do saber, bem como da parte de José Silva Pereira a identificação das potencialidades do concelho de Rio Maior e da Mina do Espadanal para essa finalidade, manifestando a abertura da DGEG.

Da intervenção de Jorge Mangorrinha, destacamos:

Desde a sua criação a EICEL1920 valorizou o património do concelho com recursos técnicos e financeiros próprios dos associados, colocados ao serviço dos riomaiorenses de forma voluntária e gratuita, através dos 8 pontos seguintes:

1. Reconhecimento científico da importância do património sustentada em tese de mestrado defendida no Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa sob o título «Couto Mineiro do Espadanal – Rio Maior – História, Património e Identidade», da autoria do presidente da direção, arquiteto Nuno Rocha.

2. Mobilização da comunidade riomaiorense para a defesa do património mineiro reunindo mais de uma centena de associados e criando uma comissão de antigos funcionários que vem registando as memórias do trabalho na Mina.

3. Recuperação do importante espólio fotográfico e de equipamentos do antigo Couto Mineiro do Espadanal, em colaboração com a comunidade e os descendentes dos antigos funcionários da Empresa Industrial Carbonífera Eletrotécnica, Lda., que a associação pretende disponibilizar aos riomaiorenses com a instalação de um centro de interpretação do património geológico e mineiro.

4. Envolvimento das novas gerações na valorização do património concelhio através do desenvolvimento de um trabalho de grande qualidade, pela comunidade escolar, no âmbito da disciplina Área de Projeto, com a Escola Secundária de Rio Maior, apresentado na III Jornada do Património Mineiro do Concelho de Rio Maior.

5. Introdução em Rio Maior do Roteiro das Minas e Pontos de Interesse Mineiro e Geológico de Portugal onde se espera que a Mina do Espadanal venha a ser inscrita, abrindo-se caminho à inscrição, também, como já aconteceu, das Marinhas do Sal, por parte da CMRM.

6. Disponibilização ao Município de um contributo importante para o reconhecimento do património mineiro riomaiorense no Plano Estratégico de Desenvolvimento de Rio Maior, documento que adotou as propostas da EICEL1920 e trasncreveu os estudos da autoria dos seus membros.

7. Inversão do estado de abandono a que estava votado este complexo mineiro, alertando para a sua utilização como depósito de materiais de construção e resíduos bem como passando à prática com a disponibilização de trabalho voluntário pa-ra a sua limpeza, nomeadamente através da realização até esta data de 6 ações voluntárias de conservação cujos resultados estão patentes e às quais a associação se propõe dar continuidade de forma regular. Contamos, nestas ações, com o im-portante apoio da Junta de Freguesia de Rio Maior.

8. Mais recentemente, através da recuperação do mais antigo título da imprensa local, o jornal O Riomaiorense, colocado ao serviço da divulgação do património cultural.

Pretendemos e podemos no entanto ir mais longe.

Apresentamos à Câmara Municipal a disponibilidade da EICEL1920 para realizar obras de recuperação faseada da Fábrica de Briquetes, com recurso a apoios no âmbito da Lei do Mecenato. Propomos, como primeira fase, a recuperação de um dos edifícios que compõem o complexo mineiro mediante a celebração de um contrato de comodato com o Município, para ali instalar um centro de interpretação do património geológico e mineiro do concelho.

Pretendemos criar em simultâneo um museu virtual do Couto Mineiro do Espadanal cuja elaboração está em curso. Obtivemos a disponibilidade da Direção Geral de Energia e Geologia para acolher uma exposição interpretativa física e o futuro museu virtual no Roteiro das Minas e Pontos de Interesse Mineiro e Geológico de Portugal.

A exposição «História do Couto Mineiro do Espadanal», patente até setembro na Galeria Municipal dos Paços do Concelho, corresponde a uma parte reduzida do material expositivo que a EICEL1920 pretende disponibilizar em breve na sua sede e que ficará disponível para instalação na Fábrica de Briquetes “desde que as autoridades o queiram”.

A EICEL está disponível para trabalhar com os riomaiorenses e se houver acolhimento Rio Maior reforçará o seu papel no património industrial e honrará quem, trabalhando arduamente, foi o pulsar de um tempo exemplar de uma terra que se habituou a uma marca social e urbana, hoje desejavelmente indestrutível.

Por sua vez Isaura Morais assegurou que a preservação e salvaguarda do património mineiro concelhio e a sua potencialização em mais-valias para o conhecimento e o saber são também compromissos do seu programa autárquico: “Estamos preparados para, mal haja condições financeiras, recuperar este complexo e a zona envolvente, devolvendo o seu usufruto à população como marco histórico da exploração mineira do concelho, património cuja salvaguarda e valorização faz parte da agenda do executivo a que presido”, declarou.

A autarca referiu-se à Mina – que chegou a empregar 1 500 pessoas e que tem na chaminé de 70 metros da fábrica de briquetes a imagem mais icónica, e de há uns anos a esta parte também uma estátua ao Mineiro, na Avenida Mário Soares, esta construída no antigo leito da linha de caminho-de-ferro que permitia escoar a produção de briquetes –, como “um dos grandes fatores de desenvolvimento do concelho de Rio Maior na primeira metade do século XX, atraindo mão-de-obra vinda de todos os pontos do país mas com predominância do Alentejo; aqui se fixaram e constituíram família cujos descendentes continuam entre nós, são a nossa comunidade e continuam a contribuir para a afirmação diária deste concelho, de importância estratégica na região pelo seu posicionamento geográfico entre o Ribatejo e o Oeste, as suas acessibilidades, infraestruturas e condições de vida”. É um município cuja economia depende em boa parte da indústria extrativa, da exploração de recursos minerais de “inegável qualidade, as sílicas, a areia e a pedra, produtos de exportação para todo o Mundo” a que se juntam as Salinas de Rio Maior, referiu ainda Isaura Morais que a finalizar assegurou à EICEL1920 que encontrará na Câmara Municipal “um interlocutor que tem, também, como um dos seus objetivos preservar a história e a memória dos riomaiorenses”.

Ao longo do dia as comemorações do Centenário da Mina do Espadanal foram acompanhadas pelos vereadores Ana Filomena Figueiredo (CDS-PP), Daniel Pinto (PS) e Augusto Figueiredo (CDU). Na sessão de abertura, além destes autarcas também estiveram presentes o vice-presidente do Município, Carlos Frazão Correia e o presidente da Junta de Freguesia de Rio Maior, Luís Filipe Santana Dias.

Finda a sessão de abertura do Encontro das Comunidades Mineiras, como os mineiros esperados do Norte e do Centro ainda não tivessem chegado reuniram-se os riomaiorenses, entre antigos mineiros, familiares e entusiastas do futuro cultural, educativo e turístico da Mina do Espadanal, e os que já tinham vindo de longe, nesta foto de “família”, na escadaria da ESDRM.

Finda a sessão de abertura do Encontro das Comunidades Mineiras, como os mineiros esperados do Norte e do Centro ainda não tivessem chegado reuniram-se os riomaiorenses, entre antigos mineiros, familiares e entusiastas do futuro cultural, educativo e turístico da Mina do Espadanal, e os que já tinham vindo de longe, nesta foto de “família”, na escadaria da ESDRM.

A dar sequência ao resto da manhã, finda a sessão de abertura, como os mineiros esperados da Mina do Pejão, em Germunde, na freguesia de Pedorido, concelho de Castelo de Paiva, e os da Mina de S. Pedro da Cova, no concelho de Gondomar, estes numa excursão organizada pelo seu Museu Mineiro, ainda não tivessem chegado reuniram-se os riomaiorenses, entre antigos mineiros, fami-liares e entusiastas do futuro cultural, educativo e turístico da Mina do Espadanal, e aqueles, poucos ainda, que já tinham vindo de outros “longes”, numa foto de “família”, na escadaria da Escola Superior de Desporto, valência do Instituto Politécnico de Santarém. Chegaram entretanto os convidados de que se estava à espera, mesmo a tempo da visita às instalações da Fábrica de Briquetes e ao Plano Inclinado da Mina.

No interior do edifício principal da fábrica de briquetes.

No interior do edifício principal da fábrica de briquetes.

Avançando para a visita ao plano inclinado da Mina do Espadanal.

Avançando para a visita ao plano inclinado da Mina do Espadanal.

No Plano Inclinado da mina.

No Plano Inclinado da mina. Na foto da esquerda veem-se Marcelino Machado, António Moreira e Maria Júlia Figueiredo.

Tratou-se de uma visita guiada pelo antigo mineiro Marcelino Machado. No Plano Inclinado não houve quem não quisesse ir até lá ao fundo – cerca de 40 metros, porque daí para a frente está o túnel atulhado –, até porque naquele sábado de sol abrasador outro antigo mineiro prometia “lá em baixo está mais fresco, estão 15º”! Bom, se não eram 15 seriam aí uns 17 ou 18, a fazer toda a diferença para as peles a escaldar dos 40ºC que estavam lá fora, de modo que a sensação de frescor era um lenitivo.

A extensão dos túneis da Mina era motivo de curiosidade; falava-se de túneis que se estendiam até à Azinheira, ao Cidral, à Caniceira… uns quilómetros no subsolo.

Ao todo terão estado nestas comemorações cerca de cento e trinta pessoas.

O almoço na cantina da Escola Superior de Desporto foi muito bem servido.

O almoço na cantina da Escola Superior de Desporto foi muito bem servido.

O almoço, muito bem servido – sopa de peixe, bacalhau com natas, arroz de pato, fruta e doce – teve lugar no refeitório da ESDRM. A acompanhar, água, vinhos riomaiorenses e sumos. Depois, um cafezinho na cafetaria da instituição, a enganar a digestão que era preciso estar atento a umas três horas de painel científico sobre o «Futuro do Património Mineiro» que se desdobrava em temas como: «Recuperação e Musealização do Património Mineiro», por José Cordeiro, da Universidade do Minho e presidente da Associação Portuguesa para o Património Industrial; «Atividade mineira, investigação e educação em Ciências da Terra: o exemplo do Couto Mineiro do Cabo Mondego», por Pedro Callapez, da Universidade de Coimbra; «O Roteiro das Minas e Pontos de Interesse Mi-neiro e Geológico de Portugal – um contributo para o conhecimento e valorização do património mineiro e geológico», por Bernardo Lemos, representante do Roteiro das Minas e Pontos de Interesse Mineiro e Geológico de Portugal; e o «Museu Mineiro de S. Pedro da Cova. 500 milhões de anos de história», por Micaela Santos, diretora do Museu, temas estes que merecerão uma abordagem em separado mas complementar desta reportagem.

Um momento rubricado pelo Coro da Associação Cultural do Concelho de Rio Maior encerrou o Encontro das Comunidades Mineiras.

Um momento rubricado pelo Coro da Associação Cultural do Concelho de Rio Maior encerrou o Encontro das Comunidades Mineiras.

Um momento rubricado pelo Coro da Associação Cultural do Concelho de Rio Maior encerrou o Encontro das Comunidades Mineiras e por fim foi inaugurada pela vereadora da Cultura, Ana Filomena Figueiredo, a exposição documental «História do Couto Mineiro do Espadanal», sobre o impacte económico e sociocultural da Mina em Rio Maior, patente na Galeria dos Paços do Concelho e cuja visita sugerimos vivamente.

A vereadora da Cultura, Ana Filomena Figueiredo, inaugurou a exposição documental «História do Couto Mineiro do Espadanal».

A vereadora da Cultura, Ana Filomena Figueiredo, inaugurou a exposição documental «História do Couto Mineiro do Espadanal».

Texto e fotos: Carlos Manuel

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