O Centenário da Mina do Espadanal é já no dia 23/7/2016

As ideias e as esperanças e os caminhos que se entreveem para o futuro do património mineiro de Rio Maior.

O Centenário da Mina do Espadanal é já no dia 23/7/2016

As ideias e as esperanças e os caminhos que se entreveem para o futuro do património mineiro de Rio Maior, levaram-nos a esta conversa com três homens da EICEL1920: o vice-presidente António Moreira, o antigo mineiro Marcelino Machado e um dos grandes entusiastas do legado deste couto mineiro, João Verde da Costa.

Da esquerda para a direita, João Verde da Costa, António Moreira, vice-presidente da EICEL1920 e Marcelino Machado, antigo mineiro.

Da esquerda para a direita, João Verde da Costa, António Moreira, vice-presidente da EICEL1920 e Marcelino Machado, antigo mineiro.

Região de Rio Maior (Região) – Dr. António Moreira, como estão as relações da EICEL1920 com o Município? A EICEL contempla aderir a um projeto camarário para o complexo mineiro ou a ideia é conceberem um projeto comum?

António Moreira (AM) – Neste momento, as relações da EICEL1920 com a Câmara Municipal de Rio Maior estão muito menos tensas do que já estiveram e queremos que continuem a melhorar. A preparação das comemorações do Centenário da Mina do Espadanal leva-nos a afirmar que neste momento as relações entre a EICEL1920 e a Câmara Municipal, com a sra. presidente, o sr. vice-presidente e a sra. vereadora da Cultura são muito cordiais e temos tido algum apoio.

Em relação aos projetos de futuro, nós entendemos que a competência e a vocação da EICEL1920, do ponto de vista técnico e do ponto de vista motivacional, de desenvolvimento de um projeto que enquadre a Mina do Espadanal e o património mineiro de Rio Maior numa linha de desenvolvimento estratégico para o concelho, fundamentalmente associada à história e ao turismo, que têm potenciais brutais e cada vez maiores, é muito maior. No aspeto financeiro é que não.

O que nós achamos é que esta matéria deve ser protocolada com a Câmara. A EICEL1920 está disponível para assumir responsabilidades de comodato em relação às instalações da Mina e para arranjar mecenas que invistam no projeto. Por exemplo, nós achamos que uma das coisas fundamentais é a recuperação da chaminé, que é um ícone de Rio Maior e que tem potencialidades extraordinárias do ponto de vista da rendibilidade e de utilização como ponto de referência e até de angariação de receitas e essa recuperação pode ser feita através de mecenas. Hoje é muito mais fácil nós conseguirmos essa ligação com empresas que têm possibilidades de ser mecenas na exploração de património mineiro do que a autarquia que tem outros constrangimentos.

Nós estamos disponíveis para ajudar a que Rio Maior tenha na Mina e no património mineiro um ponto de atratividade para o concelho e eu acho que a população já percebeu, e que a própria autarquia também já percebeu que a EICEL1920 tem essa disponibilidade. Aliás foi isso que esteve na origem da criação da EICEL como associação de defesa do património.

Pensamos que é fundamental, por um lado a classificação daquele património e o mecenato por outro lado. Nós estamos disponíveis para que nos digam: durante quatro anos a EICEL1920 fica com isto, elaborem um projeto e vejam o que é que se pode fazer. É que é possível arranjar mecenas para isso, é possível haver investimento, quer das instituições do Estado quer de instituições privadas que até informalmente já manifestaram disponibilidade para negociar, sendo certo que isso passa pela definição e classificação do imóvel e que é um ponto que nós gostávamos de ver resolvido.

Já tivemos um bom sinal do executivo municipal quando na apresentação dos projetos do PEDU a sra. presidente ter dito que queria classificar património. Isso representa uma mudança naquilo que era o nosso entender em relação à classificação do património mineiro da Mina do Espadanal, mudança essa que é vista pela EICEL com muito bons olhos e queremos que ela se efetive do ponto de vista de uma decisão política do executivo.

Resumindo, há duas questões de fundo: a classificação e colocação da Mina do Espadanal no Itinerário do Património Mineiro para ter uma lógica nacional e a possibilidade de nós podermos fazer a requalificação com mecenas e criar polos de atratividade que podem ir desde a simples visita à criação de campos de atividades, à criação de espeleologia e de travessias e de juntarmos estas atratividades a outras, por exemplo as que estão associadas com os es-tágios das equipas; muitas vezes as pessoas necessitam de ter atividades que não sendo de risco permitam ocupar o espaço.

Região – O arquiteto Nuno Rocha encontra-se em Macau, não deverá vir ao dia do Centenário da Mina do Espadanal mas tem muito dele nas comemorações.

AM – Isso é inquestionável. Todos os elementos da direção, todos os colaboradores dos órgãos sociais da EICEL1920, todas as pessoas mais próximas sabem que este centenário tem uma marca indelével do arquiteto Nuno Rocha. Acho até que esta é uma forma de ele manter a ligação umbilical à terra dele; eu acho que ele se sente em Rio Maior estando quase nos antípodas, por ter esta ligação à Mina.

Região – Dirijo-me agora a si, sr. Marcelino Machado. Como é que um homem tão ligado à mina e já com 80 anos de idade, vê este autêntico hino à memória da Mina do Espadanal e dos mineiros que é a comemoração do Centenário?

Marcelino Machado (MM) – Vejo com bons olhos mas esperava por mais… Esperava que o projeto da mina avançasse mais rapidamente!

Região – Isso tem a ver com a relação EICEL – Município?

MM – Exatamente. Felizmente hoje em dia essa relação está boa.

Região – O que é que o Sr. Marcelino gostava que realmente se fizesse?

MM – Há muita coisa a fazer, dentro e fora daquelas instalações, como fazer limpezas, fazer algumas obras porque há muito ferro que já está à vista e aquilo tem que ser conservado tapando-se o ferro e isso está a demorar muito tempo a começar a ser feito… Quanto mais se demorar a resolver o problema mais o ferro se vai deteriorando. A chaminé também está nas mesmas condições, também precisa de obras, porque o ferro ganha ferrugem e atira com o cimento fora.

Região – No fundo, o grande objetivo da EICEL1920 é preservar o património, recuperar o que pode ser recuperado e transformar a Mina do Espadanal num centro de conhecimento e de visitação turística, não é?

MM – Sim, sim. Eu próprio já o fiz nos anos 80 e o engraçado é que recebia aqui visitas de todo o país e não recebia de Rio Maior… As chamadas vinham todas para a Câmara, eram encaminhadas para mim e eu depois é que fazia as visitas guiadas a es-ses alunos – eram escolas até ao 8º ano –, que vinham aos dois camiões de cada vez que iam ali para o antigo pavilhão que existia onde agora está o Multiusos. Fazíamos a visita às minas do carvão, a seguir às minas da diatomite, que é o giz, almoçávamos no pavilhão e depois íamos visitar as Salinas, onde também trabalhei e por isso sabia explicar o que ali se fazia e como. Recebia visitas de Cascais, do Algarve, de Braga e até da Faculdade de Ciências do Porto recebi; veio uma geóloga a acompanhar os estudantes, para terem conhecimentos sobre este minério daqui, de Rio Maior; ela ficou cá algumas semanas. A partir de certa altura nunca mais houve visitas.

Região – O senhor é riomaiorense…

MM – … Eu nasci na Benedita mas vim para a Fonte da Bica tinha três anos, por is-so considero-me riomaiorense.

Região – Das suas conversas com as pessoas aqui da cidade, do nosso concelho, acha que elas vão tendo mais algum interesse sobre a Mina do Espadanal?

MM – Para as pessoas terem interesse é preciso batalhar muito… É preciso mostrar também obra, mas isso tarda. Se houvesse obras, isso despertava logo a atenção das pessoas…

Região – Nesta conversa a três a propósito do Centenário da Mina do Espadanal faltava-nos questionar um dos grandes entusiastas da preservação e recuperação deste património mineiro: João Verde da Costa, um trabalhador incansável nas ações de limpeza da zona envolvente e de preservação das instalações mineiras promovidas pela EICEL Na verdade o que é que o João espera que aconteça em prol de um futuro útil do complexo mineiro, quer para o conhecimento quer porventura para o turismo?

João Verde da Costa – Espero que este caminho se faça tal como a EICEL 1920 tem preconizado ao longo de todo o seu trabalho. Mas deixe que diga que sou um incansável na dedicação, no empenho, no trabalho pela preservação daquele património mas há aqui qualquer coisa de genético em mim: é que eu também sou filho de mineiro e cheguei a Rio Maior em abril de 1970 por via da concessão mineira do Espadanal, para continuar a executar uma série de sondagens de estudo geológico das jazidas existentes tendo em vista uma segunda tentativa de se dar corpo à laboração desta exploração mineira que durante uma série de anos foi importante para a economia nacional e que de certa forma deu sustentabilidade e vitalidade ao nosso concelho, como também lhe permitiu ter para Lisboa uma importância semelhante à que S. Pedro da Cova tinha para o Porto.

Por isso me empenho pelo complexo mineiro do Espadanal de uma forma redobrada e por razões firmes. Mas estou convencido que se a comunidade riomaiorense, de há uns anos a esta parte tivesse tido um empenho muito mais assíduo, esclarecedor e muito mais sensibilizador da importância que teve este couto mineiro, de certeza que hoje teríamos muitos dos jovens riomaiorenses a defendê-lo muito intransigentemente.

Apesar de tudo acredito que assim que as coisas começarem a mexer, que consigamos atrair a Rio Maior outros eventos por via do Roteiro Mineiro, as pessoas perceberão que a par dessa centralidade que são indubitavelmente as Salinas, nosso ex-líbris, este novo polo – o complexo mineiro – será igualmente importantíssimo para a cidade e o concelho. E aos dois se juntará dentro de vinte ou vinte e cinco anos outro polo de grande atratividade turística que será, digamos assim, o “estuário” da Sibelco, um espaço que valorizará esta cidade, o concelho, o distrito de Santarém e o nosso país.

Entrevista e fotos: Carlos Manuel

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