O Coral e Orquestra Típica, como o conhecíamos, “morreu”…

Rio Maior necessita de desenvolvimento cultural

O Coral e Orquestra Típica António Gavino de Rio Maior (COTA GRM), como o conhecíamos, “morreu”, desabafou sua conhecida e dedicada figura. Era um agrupamento musical numeroso e de enorme prestígio, com discos gravados e bem sucedidas deslocações por todo o país e a Europa. Foi vítima da sua envergadura num país exaurido de dinheiros que, aparentemente, não chegam para pagar (tod)as contas, quanto mais para apoiar financeiramente manifestações artísticas da nossa cultura mátria quando a pobreza alastra, há fomes para matar e outras carências a mitigar no seio da população.

Não se pode dizer que o COTAGRM esteja formalmente extinto mas a verdade é que deu o seu último concerto em 2011; foi no dia 1 de Julho, por ironia do destino na Golegã, terra natal do seu maestro de referência, António Gavino, falecido aos 82 anos em 21 de Junho de 2005.

O público não soube, mas findo o espectáculo na Golegã o maestro e todos os músicos e coralistas foram informados de que a partir desse momento ficavam suspensos os ensaios e toda a actividade do Coral e Orquestra Típica, até se encontrar uma solução para as dificuldades financeiras com que o grupo se debatia, o que acabou por não ser possível concretizar.

O Coral e Orquestra Típica de Rio Maior com o Maestro Simões Ribeiro na batuta.

O Coral e Orquestra Típica de Rio Maior com o Maestro Simões Ribeiro na batuta.

Não obstante, ainda em 2011, no dia 19 de Novembro, o COTAGRM fez uma derradeira actuação, abrilhantando a tertúlia da homenagem então prestada ao professor António Feliciano Júnior, também ele seu coralista.

Aliás, Feliciano Júnior, que é director do jornal Região de Rio Maior desde o seu n.º 47, de 25/8/1989, em 1956 foi um dos fundadores do Círculo Cultural de Rio Maior, juntamente com Amílcar Marques, Ernesto Alves, Francisco José Correia, João Afonso Calado da Maia, José Pedro Inês Canadas e Luís Carvalho Goucha, entre outros. Ainda nesse ano seria criada a Orquestra Típica do Círculo Cultural que viria a ser conhecida por Chia-a-Nora e cujo primeiro maestro foi António Gavino; foi também criado um Coral. Mais tarde, Orquestra Típica e Coro formaram um só agrupamento que acabou por se extinguir em 1960, com o próprio Círculo Cultural a suspender as suas actividades.

O Coral e Orquestra Típica de Rio Maior surge em 17 de Junho de 1978, sob a batuta do maestro António Varela. Assume-se sucessor da Orquestra Típica e do Coro do Círculo Cultural, por isso o povo continua a chamar-lhe Chia-a-Nora e se diz ter renascido.

Gavino, regressado de Moçambique para onde partira, acabaria por assumir a regência do novo agrupamento.

Trago este apanhado de factos à introdução deste artigo porque o estado de inanição do COTAGRM, muito mais do que um problema da Associação Cultural do Concelho de Rio Maior (ACCRM), que integra, é uma imensa carência cultural num concelho de que era a mais visível expressão artística no que respeita à música e ao canto.

Não será pois por acaso que os recém-eleitos e empossados novos corpos gerentes da Associação Cultural do Concelho de Rio Maior (Região de Rio Maior n.º 1347 de 1/8/2014) têm como objectivo “criar uma Escola de Música que possa ser a raiz de várias valências a serem criadas e/ou relançadas”.

Cruzando esta informação com a FRIMOR e a marca «Rio Maior», numa “perspectiva de desenvolvimento cultural”, numa análise comparada, de incidência territorial e regional a nível do Oeste e Vale do Tejo, “a mim entristece-me, como riomaiorense, que Rio Maior não tenha um desenvolvimento cultural consentâneo com aquilo que é a nossa dimensão territorial, populacional e a nossa densidade urbanística”, afirmou o vereador Daniel Pinto (PS), na reunião de Câmara de 8 de Agosto.

Prosseguindo, o autarca apontou que “municípios com dimensão semelhante à de Rio Maior e até de dimensão inferior têm uma dinâmica cultural, neste caso musical, ao nível do associativismo cultural e do estabelecimento de escolas de música e orquestras, incrível”, tanto mais que Rio Maior “já teve no passado essa dinâmica” e que “tem vindo a perder, nos últimos anos, esse capital intelectual e cultural”.

Daniel Pinto gostaria de ver Rio Maior apresentar “um «output» (uma produção) cultural para todos nós e para aqueles que nos visitam, mais rico e com mais capacidade de gerar criatividade e imaginação”, porque, argumenta “provavelmente o tempo em que o desenvolvimento se fazia pelo material, pelas obras, já lá vai, agora é o tempo da manutenção do património construído e é também o tempo do desenvolvimento do imaterial e do intangível”. Comentando que actualmente “fala-se muito de indústrias criativas como factores de desenvolvimento económico”, na sua opinião “Rio Maior tem que fazer um esforço enorme de projectar o futuro nesta base”.

Reconhecendo que isso não se faz da noite para o dia e que não se pode exigir que daqui a uns meses ou um ano tudo esteja a “bombar”, a funcionar com grande intensidade, prognosticou que esse trabalho de base “dos agentes culturais, dos agentes associativos, dos agentes políticos e da Câmara Municipal tem que ser fortíssimo, para relançar Rio Maior numa rota de desenvolvimento cultural que já existiu e que tem vindo a morrer”.

E alertou: “Não nos podemos esquecer que Rio Maior não é só desporto. Não nos podemos esquecer das outras áreas de desenvolvimento humano, pela via da cultura, da imaginação e da criatividade.”

Esta intervenção, que começou por ser anunciada como apenas uma nota a propósito do que os novos dirigentes da Associação Cultural do Concelho de Rio Maior se propõem fazer, suscitou outra: “Não podia estar mais de acordo com o vereador Daniel Pinto relativamente à Cultura e à necessidade de reanimar aquilo que Rio Maior já teve, porque antes de ser a Cidade do Desporto teve muito mais coisas e havia na população um sentimento de pertença que promovia muitas actividades culturais”, afirmou Ana Filomena Figueiredo (CDS-PP), vereadora da Cultura da coligação Juntos pelo Futuro.

Sobre a proposição dos novos dirigentes da Associação Cultural, que passará pela criação de um coro e orquestra que, “claro, dificilmente terá as características da anterior”, a ideia será dar corpo a esses novos coro e orquestra a partir da formação propiciada pela Escola de Música, por cuja criação pretendem começar.

É de ter em conta que parte das pessoas dos novos corpos sociais da Associação Cultural já participava no Coral e Orquestra Típica e no Coro da Santa Casa da Misericórdia de Rio Maior; este passa, de resto, a ser valência da ACCRM.

Ana Filomena Figueiredo contou que quando esteve com os actuais dirigentes da ACCRM passou-lhes a mensagem de que a Associação “nunca foi apenas o Coral e Orquestra Típica de Rio Maior; não nos podemos esquecer que tem um património cultural muito vasto e uma grande riqueza que deve ser explorada”. Por outro lado é necessário “continuar na senda do que foi em tempos o estudo e a promoção da História e Cultura de Rio Maior, porque a Cultura não é só música”, informou.

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