O empresário Edgard Gomes no seu 60º aniversário

Edgard Gomes Subiu a pulso na vida, descobriu Isaura Morais para a política e tem a mesma ideia de sempre para Rio Maior.

Edgard Carvalho Gomes no escritório da sua Transave, na Quinta da Amália.

Edgard Carvalho Gomes no escritório da sua Transave, na Quinta da Amália.

Foi onde nasceu, naquela que é hoje a Quinta da Amália, que Edgard Carvalho Gomes celebrou com a família, os amigos e os colaboradores “uma vida de 60 anos” – a sua –, como prefere dizer.

No Vale da Rosa, na sua casa de sempre, que já vem dos avós maternos e a que passou a chamar Quinta da Amália em memória de sua mãe, recebeu no domingo, 26 de julho de 2015 os convivas para seu almoço de aniversário, cumprido dias antes.

Um bufete ao ar livre, apetitosamente provido, foi abrindo o apetite para o almoço volante, muito bem servido, resguardado do sol quase a pino num dos pavilhões e para quem preferiu assim servia-se ali e degustava-o à sombra fresca de um renque de árvores, no lado quase oposto àquele, com um generoso largo de permeio.

É praticamente em redor desse largo que se distribuem os principais edifícios da Quinta da Amália, entre eles um pavilhão propositadamente requalificado para acolher em ambiente desumidificado as 26 motorizadas e uma Vespa da coleção do empresário da Transave, instalação que Edgard Gomes franqueou a quem quisesse admirar a coleção.

A meio da tarde vi partir num atrelado puxado por um automóvel, provavelmente a caminho do restauro, no norte do país, mais duas dessas preciosidades de duas rodas, recém-adquiridas, que à distância me parecerem ser dos anos sessenta do século XX.

Esta conversa com o empresário Edgard Carvalho Gomes desenrolou-se no escritório da Transave, na Quinta da Amália.

Região de Rio Maior (REGIÃO) – Pode dizer-se que o Edgard Gomes subiu a pulso na vida.

Edgard Gomes (EG) – Pode dizer-se e com toda a propriedade.

REGIÃO – Fale-me do Edgard Carvalho Gomes.

EG – Sou por natureza uma pessoa bastante rebelde e amiga de colocar as coisas em causa. Criança, quando fui para a escola primária e segundo rezam as “crónicas” da época, com alguma inteligência prática, como dizia a minha professora Maria de Jesus. Estava a imaginar uma coisa e a ver como é que ela se fazia.

Fui estudando mas era do tipo de aluno que aprendia de ouvido; ir para casa e agarrar-me aos livros não fazia o meu género: era muito mais agradável vir para casa andar com um trator, mexer numa maquinaria qualquer… A partir de determinada altura vim trabalhar com o meu pai.

Naquele tempo, quando se pensava formar vida, perguntava-se logo “já ganhas para sustentar mulher?” Fui crescendo e trabalhando aqui. Criei porcos, fiz o que é suposto fazer-se numa quinta agrícola.

Nas vésperas de me casar arranjei um emprego. Tenho aqui, no almoço, o meu primeiro patrão, o Alberto Costa, para quem fui trabalhar seis meses antes de me casar e mais seis meses depois. Foi uma fase da minha vida em que compreendi que a minha vocação não era ser funcionário por conta de outrem. Então, quando saí do trabalho dele fui diretamente a uma firma, entretanto extinta, que havia na Rua Almirante Cândido dos Reis, que era o Aguiar & Madeira, onde comprei a minha primeira camioneta e vim para casa com ela.

Nos primeiros tempos andei “ao fanico”, como se dizia; vendia umas telhas a este, umas coisas a outro, comprava umas ovelhas, fazia uns transportes…

Trabalhando de noite e de dia, em 1983 já tinha conseguido pagar a camioneta e pensei comprar um camião, mas havia um senão: é que da camioneta fazia o meu automóvel, já de um camião não podia fazer o mesmo. O que é que fiz? Logo nesse ano comprei o meu primeiro automóvel e pouco depois o camião.

Estiveram presentes no almoço muitas famílias das relações de amizade do empresário, como por exemplo o casal Santos e a filha, Inês. Isabel trabalhou durante 5 anos na empresa de Edgard Gomes.

Estiveram presentes no almoço muitas famílias das relações de amizade do empresário, como por exemplo o casal Santos e a filha, Inês. Isabel trabalhou durante 5 anos na empresa de Edgard Gomes.

Com o camião ia transportando as cargas que me apareciam, até que me iniciei no transporte de frangos, na Ribeira de S. João onde havia o matadouro da Porcave. Está aqui no almoço o senhor que me abordou pela primeira vez para ir fazer uma carga de frangos, tal como está o fundador da Porcave. No dia 1 de setembro de 1983, quando esse senhor me falou para ir fazer a minha primeira carga de frangos, estava eu longe de imaginar que ia ser o princípio da minha atividade principal.

Começámos a trabalhar ali, depois fomos adquirindo cadenciadamente vários camiões e fomos crescendo. Cerca de dez anos mais tarde todas as camionagens que se dedicavam ao transporte de aves vivas, praticamente extinguiram-se. Nós, entretanto, já tínhamos iniciado outra atividade, até como complemento do transporte, que era a execução das cargas e foi com o que ficámos, acabando por nos desfazer dos camiões por uma questão de rendibilidade.

Não imaginávamos é que o desenvolvimento da execução das cargas de frangos vivos fosse aquele que foi! Estamos agora em 2015 – e digo isto com alguma vaidade –, e nós estamos a manusear ou seja a carregar qualquer coisa como um milhão de aves por semana!

Os nossos clientes são relativamente poucos mas estendem-se numa faixa que vai de Vendas Novas até Coimbra.

Esta é a minha atividade principal. De outras atividades, a que me projetou mais foi a atividade política.

A incursão na política

REGIÃO – Gostou portanto da sua incursão na política ativa…

EG – Foi uma aventura que me deu muita satisfação!

REGIÃO – Porquê?

EG – Essencialmente porque me permitiu pôr à prova capacidades que eu até pensava que não tinha. Não tinha nem tenho grande jeito para falar em público mas tenho algum jeito para saber colocar as palavras e confesso que me vali delas muitas vezes.

A minha “coroa de glória” foi ter conseguido participar muito ativamente na deposição do poder então vigente em Rio Maior.

REGIÃO – O Edgard Gomes adora uma boa contestação, uma boa discussão em torno de temas concretos… Além disso escreve e argumenta muito bem. Lê muito? Escreve só sobre política? Escreve muito para a gaveta?

EG – Para ser franco, as questões existenciais já me preocuparam mais. Também já li mais. E não escrevo para a gaveta nem escrevo apenas sobre política.

Tenho ideias sobre as coisas, às vezes entendo que falar delas é um bocado perder tempo… Tenho ideias que por vezes serão radicais; sou o que se chama um anti-estatista. Acho que todo este enquadramento que o Estado faz das pessoas é uma espécie de “escravatura”. Sei que não é politicamente correto mas falarem-me de estados sociais causa-me uma certa “urticária”.

O meu avô, se fosse vivo tinha 125 anos e não tinha reforma. Vinha aqui e “toma lá 20 escudos para comprar açúcar e café”, portanto fomos de um extremo a outro extremo. Eu sei que o equilíbrio é difícil de atingir mas a questão é que esta sociedade que busca uma certa perfeição é uma sociedade castradora do indivíduo, tem nesse desígnio o seu valor principal. O indivíduo vai estudar, vai para uma “formatação” para determinadas coisas e não para uma formação… Eu digo muitas vezes que há 40 anos que se anda a formar pessoas para lugares em vez de se formar pessoas para criar riqueza, o que já de si é trágico, quanto mais num país pequeno como o nosso. Portanto dizer estas coisas é sempre muito duro de ouvir, para mais da parte de alguém como eu que se calhar consegui coisas na vida; choca as pessoas; podem até dizer naquela expressão bem portuguesa, “fala de barriga cheia”… Eu não falo de barriga cheia, eu falo por experiência da vida. E a experiência da vida diz-me que as pessoas têm que se realizar enquanto tal e não enquanto massa de carneiro. As pessoas são diferentes, têm que ter os seus estilos de vida mas não podemos andar a ensiná-las que bom, bom é ser carneiro, que é o que se faz hoje.

Conheço aí uma situação absolutamente ilustrativa do que é o nosso país hoje. Uma empresa, que não direi qual é, que admitiu uma série de engenheiros de produção animal a ganharem o ordenado mínimo mais subsídio de turno; recebem 600 euros. Mais 15 euros recebe o pessoal que anda a apanhar frangos! Foi este o país que criámos. Tenho mais dificuldades em arranjar pessoal do que em arranjar engenheiros… Não há país nenhum que resista a isto.

O empresário quando recebia a presidente do Município de Rio Maior, Isaura Morais, o vereador João Lopes Candoso (à direita) e o presidente da Junta de Freguesia de Rio Maior, Luís Filipe Santana Dias.

O empresário quando recebia a presidente do Município de Rio Maior, Isaura Morais, o vereador João Lopes Candoso (à direita) e o presidente da Junta de Freguesia de Rio Maior, Luís Filipe Santana Dias.

REGIÃO – O Edgard Gomes era presidente da Comissão Política do PSD de Rio Maior na altura em que Isaura Morais ganhou a Junta de Freguesia de Rio Maior.

EG – Perdoem-me a imodéstia. Se há coisas de que me orgulho na vida foi de um dia ter descoberto a Isaura Morais para a política.

REGIÃO – Na altura em que, digamos assim, o Edgard reativou a militância no PSD.

EG – Em 1997 vieram aqui perguntar-me se eu aceitaria ser candidato a presidente da Junta de Freguesia da Ribeira de S. João mas como nessa altura estivesse assoberbado com trabalhos da empresa respondi que não estava em condições de aceitar o convite. Então perguntaram-me se quereria pertencer à Assembleia Municipal, indo em lugar elegível. Aceitei; estar aqui na aldeia e ir para Rio Maior era atrativo… Mas não fui eleito e mais tarde, já nos meandros da política, percebi porquê: porque uma pessoa saída de outra lista tinha ingressado na do PSD, de forma que eu baixei um lugar.

Por ironia do destino, em 1998, quando me sentei pela primeira vez na bancada do PSD na Assembleia Municipal, foi para substituir uma pessoa que tinha renunciado ao seu mandato. E lembro-me de ter vindo da primeira assembleia em que estive presente, muito revoltado com a forma como um dos eleitos tinha sido tratado em termos pessoais. Aquilo não se fazia. E fui pensando que no que estivesse ao meu alcance havia de me mexer para estas coisas não se repetirem.

É durante a minha intervenção no PSD que eu conheço Isaura Morais. Convidei-a primeiro para ser militante e depois para pertencer à Comissão Política.

Quando da preparação das eleições de 2005, altura do início do meu afastamento da política ativa, eu já tinha negociado a coligação com o CDS e com a Isaura Morais a Junta de Freguesia de Rio Maior que no meu pensamento estratégico era o sítio por onde iríamos conquistar a Câmara. Ainda hoje é. Quase 64% dos eleitores do concelho estão na cidade de Rio Maior. Alguém que seja um bom presidente da Junta de Rio Maior, que faça um bom trabalho é um mais que provável futuro presidente da Câmara. Por isso acho muita graça que esta janela não seja mais fácil de ver…

A Dra. Isaura tem características muito importantes em política, num eleito. Tem uma grande capacidade de chegar às pessoas, é uma pessoa muito simples mas determinada; diz que não e diz que sim com o mesmo sorriso.

Modéstia à parte são qualidades que acabou por confirmar. Por exemplo foi muito importante na transição da Câmara, do PS para o PSD, amortecendo radicalismos.

Num tempo em que não há dinheiro, não há grandes obras mas Rio Maior apresenta uma face limpa.

A ideia de sempre para Rio Maior

REGIÃO – Defendendo que para se discutir política, para se gostar de política, para se estar na política é preciso ser independente, deixe-me dizer que penso que atualmente não há uma ideia para Rio Maior. O que acha?

EG – Eu acho que Rio Maior, neste momento tem que apostar em encher aquilo que se chama uma zona industrial. Nós precisamos de gerar emprego, de criar riqueza. A minha aposta para Rio Maior é sempre esta.

Nós já podíamos ter muito mais empresas em Rio Maior. Durante muito tempo não se apostou nas empresas.

Ouvi dizer repetidas vezes uma coisa trágica: que pelo facto de sermos um concelho voltado para o Desporto não se coadunava com muita indústria. Também ouvi ser preferível o investimento público em detrimento do privado, porque não havia falências. Ora uma falência numa empresa nem sempre é má, por várias razões: porque o tecido empresarial se está a renovar, porque a empresa não tem capacidade para se ir adaptando aos tempos, etc. Mas primeiro que se extinga qualquer coisa do Estado é o arco-da-velha e no entanto todos nós temos conhecimento dos quadros excedentários e o dinheiro que isso custa!

Apesar de tudo acho que já se fizeram algumas coisas e que outros investimentos chegarão. Penso que é por aí que se tem que ir.

É muito importante que os empresários sejam acarinhados, é muito importante cativar empresários, é muito importante estimular os poucos jovens que ainda aparecem com espírito de “desbravar terrenos”.

Eu nunca utilizei muito os caminhos dos outros para chegar a um sítio e isso hoje em dia vê-se pouco.

Já para o fim desta entrevista, um grupo de amigos, do Vale da Rosa, esperava o empresário para lhe oferecer um quadro onde estão todos a rodeá-lo. A fotografia inserida é a do amigo que foi encarregado pelos outros a entregar-lhe o quadro, gesto que foi profusamente aplaudido.

Já para o fim desta entrevista, um grupo de amigos, do Vale da Rosa, esperava o empresário para lhe oferecer um quadro onde estão todos a rodeá-lo. A fotografia inserida é a do amigo que foi encarregado pelos outros de entregar-lhe o quadro, gesto que foi profusamente aplaudido.

REGIÃO – Portanto o Edgard Gomes não vê na inexistência de um aeroporto internacional em Ota um handicap para Rio Maior, que afaste a fixação de empresas, enfim o desenvolvimento da cidade e o seu concelho?

EG – Nós para sermos respeitados, quando somos pequenos, temos que ser honrados. É um princípio basilar.

Nós temos é que tratar da nossa casa e estarmos preparados, para quando as oportunidades aparecerem as podermos potenciar.

Às vezes fala-se muito em sorte; eu acho que a sorte tem como grande componente a persistência. Temos que a saber aproveitar quando ela passa.

O aeroporto em Ota, se passasse tínhamos que estar preparados para o aproveitar. E não passou. Mas nós também não nos podemos deixar ficar a lamentar, “vê lá que o aeroporto foi a nossa desgraça”. Não sabemos se foi ou não foi. Se equacionarmos que daqui até Ota há tanta terra e terriola, as vantagens da Ota até chegarem a Rio Maior provavelmente seriam como que um fiozinho de água…

Outro fenómeno tremendo é o da construção. Nós temos construção urbana para décadas. Há casas que nunca serão habitadas!

REGIÃO – Edgard, tem à porta amigos do Vale da Rosa à sua espera. Diga-me só: a sua vida foi boa?

EG – Gostei da minha vida!

Entrevista e fotografias: Carlos Manuel

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