O fogo e as gentes

O fogo e as gentes

artigo de opinião de Miguel Félix Paulo*

Camões escreveu que “Amor é fogo que arde sem se ver”, mas o fogo que consome as nossas florestas, e as casas, e os animais, e tudo o que apanha no seu caminho, arde e vê-se bem.

E vê-se a tremenda incapacidade de um País e das suas Povoações, com Protecção Civil, Bombeiros, Forças Armadas, Sociedade Civil, incluídos, no combate a estes incêndios e, mais ainda, na sua prevenção.

E de quem é a culpa? De Portugal, de todos nós.

Só para falar em Primeiros-ministros, e já nesta Terceira República pós-25 de Abril e Junta de Salvação Nacional, começou em Adelino da Palma Carlos e acaba em António Costa. Mas como poderia ter acabado em Passos Coelho, ou José Sócrates, ou Durão Barroso, ou António Guterres, Cavaco Silva…

São anos e anos a fio encarando a Floresta como um “apêndice” da Agricultura, deixando arrastar situações e suportando-nos num Corpo de Bombeiros, voluntário. Podem estar lá para o ano, como podem não estar, podem ter os mesmos meios deste ano, como podem até ter menos, ou irem chegando à medida que o território vai ardendo.

São Concursos Públicos para aquisição de meios e serviços que ainda decorrem quando o País já arde, aviões que chegam aos bochechos e quando chegam, outros helicópteros que não voam porque não há peças, carros de bombeiros maduros que avariam ou nem saem do Quartel e ocupam espaço, a falta de água, de comida adequada, de formação, de organização, a dúvida de se saber se o Exército avança ou não, sob o Comando de quem, onde, para fazer o quê…?!

E depois passamos para o terreno. Da alguma e pouca experiência que vou tendo na análise dos pontos críticos no terreno, quando se analisa a instalação de equipamentos, e do que me lembro quando também passei por funções públicas, já vi estradas, aceiros e arrifes onde o próprio combro de separação das águas serve para plantar mais uma fila de eucaliptos, já vi eucaliptos cortados durante um incêndio para que os carros pudessem aceder à floresta e terem de ser pagos ao proprietário em sede de acção judicial, já vi palheiros anexos a casa de habitação, lares de terceira idade rodeados por eucaliptos e pinheiros, casas a confinar com matagais, bombas de incêndio partidas, pilhas e pilhas de material combustível a apodrecer na floresta, estradas e aceiros lavrados pela água e sem qualquer intervenção durante anos…

Um dia, ainda jovem, lembro-me de numa visita de um Secretário de Estado a Rio Maior, aquando da construção do Quartel de Bombeiros que conhecemos hoje, ter-lhe perguntado se não achava que as verbas para a sua construção eram insuficientes já que o número de viaturas e a área que tutelavam já era significativa e ele ter-me respondido que “… não tinha culpa que a Corporação tivesse tantos carros.”

Se somarmos a tudo isto a incapacidade de proceder a um levantamento completo do Cadastro sabendo de quem é o quê, à incapacidade de aplicar uma Lei de limpeza das Florestas e espaços rurais que até é robusta, percebendo também como resolver o problema da propriedade agrícola e silvícola que não se sustenta a si mesma, pelo menos – o rendimento que gera mesmo que se venda não cobre o custo que tem ao longo dos anos, não temos dúvida de que caminharemos em frente porque o tempo não pára, mas dificilmente iremos a algum lado de forma concertada e eficiente e em caso de incêndio estão populações e interesses gerais de um País em perigo.

No caso concreto de Rio Maior, não é difícil imaginar as proporções que facilmente um incêndio pode atingir e as consequências que pode ter para os lugares, freguesias e a própria Cidade se uma das manchas florestais dos cerca de 40% de território do Concelho florestado for afectado e como tantas vezes já tivemos “ensaios e amostras” ao longo dos anos, talvez este que corre e o de 2003, sejam os piores do passado recente.

Rio Maior tem uma boa área florestal essencialmente de pinheiro e eucalipto, muita da qual com alguma organização do território, tem uma boa Corporação de Bombeiros e com meios – que são sempre escassos –, tem Associações e empresas a operar no território no âmbito da Gestão Florestal, a Cooperativa que associa produtores e as Zonas de Intervenção Florestal. O próprio Município tem competências atribuídas nesta área e estrutura administrativa criada para o efeito.

Mas do que se percebe, ainda há muito a fazer. Muita formação e esclarecimento a dar a Produtores e interventores na floresta. Há muito “mato para roçar” e acções de sensibilização e identificação de soluções concretas para empreender. E financiamento necessário para isto.

Muito próximo de casas de habitação há terrenos fundos onde as silvas e o mato suplantam os pinheiros. De quem é a propriedade? Porque não é limpa? Quem limpa, então? Quem paga? Quem a mantém de futuro para que não volte àquele estado?

São perguntas que têm de ser postas e que têm de ser respondidas por muito que nos custe abordar o tema. Ninguém virá cá fazê-las, nem resolver o problema por nós. Temos de ser nós a fazê-lo na Junta de Freguesia, na Câmara, nas Associações, nas empresas e entre particulares. E antes que o fogo resolva o problema da limpeza por nós. Porque pode limpar muito mais do que as simples silvas.

A Floresta é um activo precioso que Rio Maior tem, na economia do Concelho e para a Indústria e não pode ser menosprezado. A par dos terrenos que não sendo produtivos economicamente mas que têm um valor inestimável sob o ponto de vista ambiental, ecológico, lúdico e de enquadramento.

Prevista para Rio Maior está também uma Central Térmica para produção de electricidade através de biomassa florestal residual que por motivos políticos nacionais, administrativos e financeiros ainda não se fez, nem se sabe se se fará.

Mas não podemos estar reféns disto nem de outra coisa qualquer para criarmos soluções. E digo soluções porque não há “a solução” mas antes uma conjugação de vontades e iniciativas tendentes a resolver um problema.

Saímos de umas Eleições Autárquicas recentes e teremos novos Executivos em breve. Talvez valha a pena pensar nisto e fazer da Floresta um Amor que não se veja arder.

Obs.: Este texto não respeita o novo Acordo Ortográfico.

* Artigo publicado na edição nº 1515 de 20/10/2017 do jornal Região de Rio Maior.

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