O jornal e a terra

O jornal e a terra.

artigo de opinião de Miguel Félix Paulo

Foi com tristeza que recebi do Diretor a notícia de que iríamos deixar de ter a edição impressa do Jornal. Ao fim de quase 30 anos o Região de Rio Maior focava-se na versão online e deixaríamos de folhear as suas páginas em papel.

Não 30, mas mais de 20 anos, foram os que a ele me ligaram ora como “Colega” – também eu passei pela comunicação social –, ora como visado, como articulista ou simples leitor.

Foi com base num artigo publicado no Região – da responsabilidade dos que o escreveram –, que tive o único “incidente grave político” da minha vida, com Tribunal e tudo. Também me lembro de estar fora do País e receber semanalmente o Região e assim ter um “link” a casa.

Não podemos negar que o Mundo caminha de forma rápida para uma nova Era onde o papel deixará de fazer sentido, senão como base para o chips que a Dra. Elvira Fortunato inventou, e aí sim é um avanço extraordinário.

O novo Mundo processa-se na net e os ecrãs mexem-se com o dedo. E não há razão aparente para que o Região fosse diferente.

Fica o saudosismo a que não podemos ficar agarrados e a nostalgia do movimento de ir ao quiosque e trazer as folhas dobradas debaixo do braço, mas a Vida é assim. E estou certo que, pelo menos uma vez por ano, tipo edição comemorativa, vamos ter acesso a uma versão impressa para matar saudades, nem que para isso tenhamos de fazer “um abaixo assinado”…

Rio Maior tem uma história de Comunicação Social, imprensa e rádio, e que já acumula umas décadas largas, centenária até no caso da imprensa, e que valia a pena registar para que fique e conste.

Um Órgão de Comunicação Social é uma sinal distintivo de uma Comunidade e de uma Região, parte integrante da sua estrutura social e com uma função-base de coesão, de realização social e de informação.

A força de uma Comunidade também se mede pela existência e sustentabilidade de um Órgão de Comunicação Social. Rio Maior tem 4, 2 rádios e 2 jornais, com atividade regular. Isto torna-nos numa “praça” forte? Talvez. Esforço e dedicação de quem os mantêm existe de facto e todos somos testemunhas, pondo ainda na mesa a longevidade das publicações e emissões e a posição que ocupam nos seus sectores, nomeadamente as rádios, com posição de relevo nos canais onde atuam e dão cartas, encontrando-se ao mais alto nível de desempenho e audiência o que faz delas um caso de sucesso e distintivo da capacidade de Riomaiorenses. Mas já a “praça” aguentar uma edição impressa… a história é outra.

Mas a razão pela qual não aguenta não será só pela falta de dinheiro e a dedicação de quem faz o Jornal é inquestionável. Há a forte concorrência da internet, é certo, mas há também uma diluição de valores sociais que levam a uma certa falta de empenho e de vontade da Sociedade em exigir e sustentar pilares que dão forma à sua identidade. E um Jornal, por exemplo, é um pilar desses.

Se mudam os tempos e as vontades, é facil de aceitar que todos teremos de migrar para a internet e aí ter acesso à informação da nossa terra e região. E como nem tudo são desvantagens, a possibilidade de mais cor, mais imagem, filme, maior atualidade, maior interação com o Leitor, são argumentos fantásticos para crer numa nova vida de sucesso do Região.

Não falando das crianças, jovens e menos-jovens, porque é dado adquirido que facilmente acedem e tem instrumentos para “navegar na net“, quantos idosos – de avançada idade até – andam no Facebook, ouvem música no Youtube, consultam sites? Não será uma epidemia geral, mas há muitos. E outros não vão lá porque não tem tablet ou não são incentivados a fazê-lo. E há quem simplesmente não queira, mas aqui também hoje nem todos compram o Jornal.

Há já alguns anos, a propósito do Programa Cidades Digitais, de iniciativa do Governo e da União Europeia, assisti na Biblioteca Municipal de Aveiro a “visitas à distância” que munícipes faziam a familiares que estavam internados nos Hospitais de Coimbra e do Porto. A uma hora marcada sentavam-se na Biblioteca frente a um ecrã com câmera, onde colocavam auscultadores com microfone. Nos hospital, o enfermeiro deslocava um carrinho com o mesmo equipamento e frente ao doente, eram postos em contacto de imagem e som, em tempo real.

Com a evolução tecnológica entretanto havida imagine-se o que se podia fazer hoje!

E cá, em 2018, poderiam as entidades públicas promover a “leitura do Jornal” nos Centros de Dia, Juntas de Freguesia, Associações e Coletividades, para aqueles que não têm o tal tablet por algum motivo, ou ainda não sabem manuseá-lo? Podia ser interessante.

Os objetivos do aumento da literacia jornalística, do esclarecimento público, da coesão da população e do território pela via deste canal especialmente orientado para o concelho e para a região, estou em crer que se cumpriam e um Povo com instrumentos de procura e informação atual e presente estará sempre um ponto mais à frente.

Havendo incentivo e organização inicial, o público conquista-se e depois o mercado encarrega-se de fazer o resto.

O fim de uma edição impressa só pode ser encarada como uma medida ambiental já que menos papel significa menos árvores abatidas. O Região continuará online a par com os demais colegas na “praça” e cumprirá a sua missão com a vantagem da experiência e história que marcaram as sua páginas e agora marcarão os seus bits.

Na minha opinião, Rio Maior precisa e agradece.

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