O percurso de sucesso de um riomaiorense em França

De bate-chapas a restaurador e colecionador de antigas motorizadas e lambretas.

Júlio Campos, com a esposa, D. Graça, na Expo Classic 2015, em Rio Maior.

Júlio Campos, com a esposa, D. Graça, na Expo Classic 2015, em Rio Maior.

Júlio Gonçalves Campos nasceu em Rio Maior, “ali onde estão as Rações Progado, onde era antes a Serração Nova”.

Aos 16 anos foi aprender o ofício de bate-chapas na oficina do Campos e Silva onde tinha um irmão, José Campos, a trabalhar nas bombas de combustível.

Do Campos e Silva foi para Setúbal, trabalhar na Austin e na Morris na IMA – Indústria de Montagem de Automóveis, de onde saiu para ir cumprir o serviço militar.

No Exército passou por Leiria e Entroncamento e foi colocado no Grupo Companhias Trem Auto (GTA), de onde passou para a CS Móvel “onde havia esses carros verdes e pretos que eram dos coronéis, brigadeiros e generais”, conta.

Dali, Júlio Campos partiu para França onde foi trabalhar para uma oficina Opel. Mostrou logo o que valia na sua arte de bate-chapas e de tal modo o fez que ficou imediatamente admitido.

Viria a estabelecer-se por conta própria na cidadezinha de Saint Florentin, a duas horas de Paris por estrada, onde prosperou e hoje, reformado, anda seis meses cá e outros seis lá, tendo como grande entretenimento restaurar até ao mais ínfimo pormenor, lambretas e motorizadas, fazendo parte do grupo lúdico de motorizadas «Os Cotas» de Arruda dos Pisões.

Júlio Gonçalves Campos foi um dos dois aficionados riomaiorenses das motorizadas e lambretas, presentes na 3ª Expo Classic de Rio Maior, que se realizou em 13 e 14 de junho. Já antes me tinha sido dado admirar algumas da suas “meninas”, na sua casa, em Arruda dos Pisões. A conversa então encetada continuou agora.

Região de Rio Maior (REGIÃO) – Aquilo na CS Móvel era um descanso, não?

Júlio Gonçalves Campos (JGC) – Na CS Móvel eu era o único bate-chapas que lá estava! E mesmo assim salvei muitos rapazes de ir parar à prisão reparando pequenas amolgadelas dos carros que conduziam, sempre com o consentimento do comandante da companhia, amolgadelas essas que muitas vezes davam direito a ir para o Ultramar…

REGIÃO – Findo o serviço militar  foi para França…

JGC – Fui para França a salto, aos 22 anos…

REGIÃO – Ilegalmente portanto…

JGC – Ilegalmente, a conduzir o carro de uma outra pessoa ilegalmente mas com carta de condução.

REGIÃO – Em França foi trabalhar para uma oficina Opel.

JGC – Fui a essa oficina, perguntaram-me o que é que eu sabia fazer, disse-lhes que era bate-chapas, puseram-me a arranjar o capô de um carro que estava para lá todo amachucado e ao fim de uma hora de eu estar a trabalhar nesse capô disseram-me “já pode parar, é um profissional, nós ficamos consigo”. Chegámos a acordo no salário – era um bom salário, era mesmo um súper salário naquele tempo – e ao fim de lá trabalhar um ano, como o meu irmão Joaquim, que trabalhava noutra terra, me tivesse dito que se quisesse ir para ao pé dele arranjava-me lá emprego numa oficina, fui ter com ele e então fui trabalhar numa oficina da Simca (marca que já não existe) e da Talbot onde estive entre cinco a seis anos.

REGIÃO – E daí?

JGC – Daí fui para um concessionário Peugeot, uma grande garagem, como responsável da secção de bate-chapas e pintura. Com 6 ou 7 anos de França eu já dirigia uma equipa de franceses; foi muito importante para mim: deu-me uma grande alegria, com o meu saber, a minha técnica, o meu bom trabalho, orientar os franceses.

Mais tarde o concessionário vendeu a garagem para lá instalarem uma grande superfície comercial e nessa altura eu comprei o recheio todo que havia na secção de bate-chapas e pintura e montei a minha própria oficina!

REGIÃO – Estamos a falar de que terra?

JGC – Estamos a falar de Saint Florentin, na região de Auxerre. Por aí me mantive de 22 a 23 anos, por minha conta. Éramos cinco a trabalhar – eu, um empregado de escritório e mais três colaboradores – e agora é o meu filho quem toma conta daquilo.

REGIÃO – Agora o senhor faz seis meses cá e outros seis lá…

JGC – Exatamente. E é para lá que eu levo as minhas motorizadas, desmontadas. Nos tempos livres vou para a oficina onde tenho todas as condições para o restauro de tudo o que é chapa e pintura.

REGIÃO – O que é que o atraiu para este passatempo que é o restauro das relíquias motorizadas de duas rodas?

JGC – Vi o meu irmão António restaurar algumas, gostei do que vi e como se enquadrava na minha área de atividade pus-me a pensar que quando estivesse reformado e viesse para Portugal podia arranjar uma Vespa ou uma Florett, e foi o que fiz. O meu irmão até me disse que isso era difícil de encontrar mas eu procurei, procurei e já tenho uma mão cheia delas. Há quatro anos que me dedico a restaurá-las. E também faço uns passeiozinhos por aí.

REGIÃO – Pois, o senhor faz parte do grupo lúdico de motorizadas «Os Cotas» de Arruda dos Pisões.

JGC – Pois faço e já fui presidente do grupo durante dois anos; de dois em dois anos mudamos de dirigentes. Nesses passeios, nas terras onde eu ia ganhámos sempre os primeiros prémios com os meus restauros! Temos lá muitos prémios ganhos com a minhas mo-torizadas.

REGIÃO – Vender as motorizadas e as vespas é que não vende…

JGC – Vender, não. São da minha coleção mas utilizo-as com frequência: vou a este passeio, vou àquele… Sou muito conhecido pelo grupos.

Outra coisa que eu fiz, quando cá cheguei e verifiquei que havia passeios uns atrás dos outros numa série de terras próximas umas das outras, às vezes dois passeios no mesmo dia, foi telefonar aos meus colegas presidentes de todos os outros grupos e sugerir-lhes que nos reuníssemos num restaurante, jantássemos e nos organizássemos num calendário para evitar essas situações. Ficou assente que a prioridade iria para os grupos que tivessem passeios nos dias das festas das respetivas terras e os restantes grupos escolheriam um dia  para o seu passeio. Por isso agora, no concelho de Rio Maior temos os passeios organizados. O Celso, de Teira, até me disse na brincadeira “ó Sr. Júlio, agora vai ser o nosso presidente da Associação dos Passeios do Concelho de Rio Maior”, que não existe, evidentemente. Mas o certo é que agora somos uma família: vamos aos passeios uns dos outros – aqui na Arruda dos Pisões, no ano passado éramos 110.

Máquinas de Júlio Campos na 3ª Expo Classic de Rio Maior.

Máquinas de Júlio Campos na 3ª Expo Classic de Rio Maior.

REGIÃO – Mas diga lá, Sr. Júlio Campos, cada motorizada há de ter um preço…

JGC – Olhe, eu não posso dizer que a motorizada tal vale assim ou assado, porque numa região tem um valor, noutra outro valor. Seja como for, eu faço os restauros com amor e carinho, com o meu saber  e a estimação que tenho nelas porque ponho nisto o melhor que eu sei de mim mesmo, que não há preço para a minha coleção.

A minha ideia é deixá-las para os meus filhos e os meus netos, porque eu separar-me das minhas motorizadas e lambretas é como separar-me de um filho ou de um neto. Só para ter uma ideia, por causa da porca da direção da Florett vermelha, que está aqui na 3ª Expo Classic de Rio Maior, que ficou um pouco escurecida quando o meu colega me tratou da mecânica, eu perdi praticamente um dia inteiro em Leiria para a trazer devidamente trabalhada, para que a Florette estivesse pronta a tempo de estar aqui na exposição.

REGIÃO – O senhor tem lá em casa, em Arruda dos Pisões, guardada numa espécie de baia, uma velha motorizada. Vai restaurá-la?

JGC – Talvez a venha a restaurar um dia. Era de um amigo, da minha geração, mas não da minha área profissional. Enquanto eu andava com bicicletas decrépitas, ele fazia um vistão na motorizada que lhe tinha sido oferecida pelo pai. O tempo foi rolando e a certa altura vendeu-ma por 100 euros e eu gostava muito de a arranjar, até porque é da nossa terra.

Júlio Campos não pensa musealizar as suas máquinas de duas rodas, que foram importantíssimos meios de transporte pessoal e de recreio nos anos 60 do século XX. Na Expo Classic de Rio Maior estavam duas Florett de 1965 e uma Zundapp de 1966. “Os meus filhos não devem vir para cá, que é lá em França que têm a vida deles, ambos com uma boa situação. Eles acham graça a isto…”, diz.

Seja como for, ainda tem três Zundapp de origem e quatro ou cinco Florett para restaurar. O tempo estimado para cada restauro é de quatro a cinco meses.

Entrevista e fotos: Carlos Manuel

 

Carlos Manuel

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