Para o conhecimento histórico das Bandas Filarmónicas

As Bandas Filarmónicas. Contribuição para o seu conhecimento histórico

Autor: João de Castro.

Autor: João de Castro.

No quadro da Música Popular, assumiu particular importância, a partir da Regeneração, o fenómeno da emergência das Bandas Filarmónicas. O processo ter-se-á iniciado no âmbito militar logo desde o final das Guerras Liberais, com a estabilização da distribuição de unidades militares residentes pelos quartéis de todo o País, e as bandas dos vários regimentos depressa foram assumindo, a par com as suas funções puramente militares, uma prática regular de apresentação pública, quer em salas de espetáculo, quer em coretos e praças, quer em procissões religiosas e desfiles cívicos pelas ruas. Igualmente se destacaram, neste contexto militar, as bandas da Guarda Municipal de Lisboa e do Porto, a primeira das quais se transformaria, após o 5 de Outubro na Banda da Guarda Nacional Republicana, e a da Armada. Sucessivos diplomas legais, em 1877 e 1899, regulamentaram a composição instrumental e o funcionamento destes agrupamentos regimentais, cujo número ascenderia já nas primeiras décadas do século XX a 32, até à sua eventual redução a apenas oito pelo Estado Novo, já em 1937.

É possível que o processo de implantação das bandas filarmónicas civis tenha surgido na sequência do das suas congéneres militares, ou pelo regresso à vida civil dos músicos militares desmobilizados que tinham integrado as unidades envolvidas nas Guerras Liberais ou simplesmente pelo desejo de emulação da oferta musical assegurada pelas bandas regimentais nas cidades em que estavam aquarteladas. O que é certo porém, é que as filarmónicas civis se multiplicaram a partir de meados do século XIX por todo o território nacional, do Minho ao Algarve e incluindo os Açores e a Madeira.

A gama de designações adotadas por estas Sociedades Filarmónicas – como em geral se designavam estas associações musicais de cidadãos – é extensa e variada: algumas escolhiam nomes que sublinhavam sobretudo a dimensão de convívio e de sociabilização dos seus propósitos («Recreio Familiar» ou «União Recreativa»); outras preferiam títulos mais próximos da temática musical (a palavra «Harmonia» é neles recorrente, na sua dupla aceção de símbolo da ciência musical e de metáfora do espírito unitário dos seus associados, mas também surge com frequência a palavra «Capricho», alusiva ao brio do respetivo desempenho); outras ainda invocavam a mitologia clássica da Antiguidade como ícone de respeitabilidade cultural («Apolo», «Euterpe», «Minerva»); um quarto grupo de designações evocava as datas de efemérides históricas relevantes («1º de Dezembro») ou afirmava a sua adesão a grandes princípios cívicos, em alguns casos de inspiração maçónica mais ou menos detetável («Luz e Glória», «Triunfo e Esperança»); no final do século começaram a aparecer ocasionalmente, sobretudo nas zonas de maior concentração industrial, nomes de filiação próxima ao ideário do movimento sindical e socialista («Operária Setubalense»). Mas para lá destas designações oficiais não é raro que cada banda passasse antes a ser conhecida no seu espaço de implantação por uma alcunha nem sempre de origem facilmente identificável ou compreensível para um observador exterior, em particular quando numa mesma localidade coexistiam duas ou mais sociedades filarmónicas, que tendiam a constituir agrupamentos rivais, frequentemente por estarem associadas a fações políticas adversas do Rotativismo monárquico, ora históricos e regeneradores, ora regeneradores e progressistas, como mais tarde monárquicos ou republicanos. Umas vezes as designações referem-se apenas à precedência cronológica das formações (a «Música Velha» e a «Música Nova»), outras vezes decorrem de associações de significado legível apenas localmente (em Silves opõem-se os «Fraldas» e os «Moleiros»), em Portimão os «Rançosos» e os «Lamonas», em Vila Viçosa os «Prussianos» e os «Franceses»).

Ao contrário do que hoje se poderia imaginar, a base social de muitas destas primeiras bandas esteve ligada sobretudo às novas elites locais do Liberalismo mais do que a um fenómeno de associativismo popular, propriamente dito – profissionais liberais, quadros da Administração Pública e da magistratura, proprietários rurais, todos eles aparentemente interessados em acompanhar e conhecer, mesmo a partir dos centros urbanos mais remotos, as óperas do São Carlos e do São João e as operetas, comédias musicais, zarzuelas e vaudevilles dos teatros de Lisboa e Porto, bem como as danças da moda nos salões burgueses da capital.

Podia suceder, no entanto, que numa mesma localidade se constituíssem em paralelo uma banda da elite e uma outra de extração mais popular (em Mértola, por exemplo, a «dos ricos» era a do «Pé Fino» e «dos pobres» a da «Farrapa»). De todas as maneiras, na viragem para o século XX e nos anos da República a tendência seria para o desligar gradual das elites bem-pensantes da terra do movimento filarmónico, que para elas tinha entretanto deixado de ser um símbolo de distinção social local e ganho agora uma aura de «provincianismo». Deu-se assim nos alvores do século, à escala nacional, uma reconfiguração tendencial da base associativa das bandas no sentido de uma relativa proletarização que, por sua vez, gerou uma mudança crescente no gosto musical do respetivo repertório, afastando-o mais dos modelos eruditos e recheando-o de cançonetas, marchas e danças de sabor mais assumidamente popular, incluindo, nas décadas de 1910 e 20, números de Revista, tangos e fox trots (começariam mesmo a surgir nos anos 20, no seio de algumas bandas, conjuntos de baile mais pequenos especializados nestes novos ritmos internacionais, os chamados «jazes»), para lá dos Passos Ordinários e Dobrados de rotina para as procissões e desfiles municipais.

Fora de Lisboa e Porto, o movimento filarmónico, cuja história e repertório estão também eles em grande parte por estudar, constituiu assim certamente, por conseguinte, o esteio da vida musical da rede das pequenas cidades e vilas do País, antes, durante e depois da I República.

Os membros das sociedades filarmónicas eram, geralmente, oriundos das camadas populares – artífices, muitos deles. Às vezes ultrapassavam o campo recreativo complementando-o com uma missão educativa, beneficente e mutualista.

Em Coimbra, nos princípios da década de 1850, nasceram duas importantes filarmónicas: a Filarmónica Conimbricense e a Filarmónica Boa-União (inicialmente com outras designações). Assumiram uma dimensão socorrista, instituindo o seu próprio Montepio, respetivamente em 1889 e 1860. De ambas (mas especialmente da segunda) inúmeras referências se assinalaram nas páginas da vida social coimbrã. Registe-se (ou recorde-se), a título de exemplo, a participação em procissões, em atos fúnebres, em festas civis, em saraus, em bazares, em lugares de convívio e recreio nos passeios públicos, em manifestações públicas, em receções de figuras ilustres, em festas desportivas, em excursões. Além das atuações em Coimbra, as duas filarmónicas eram chamadas de localidades diversas para abrilhantar festas e romarias; mas também o inverso ocorria, com a vinda a Coimbra de outras bandas. Posteriormente, outras foram criadas: a dos Bombeiros Voluntários e a dos Operários da fábrica de lanifícios de Santa Clara, que pouco duraria (de 1896 a 1901) sem esquecer as bandas militares – em especial (após 1885) a excelente banda do regimento de infantaria 23.

Instituições de entretenimento e de cooperação entre as associações, as sociedades filarmónicas, chamadas a participar nos eventos festivos de natureza civil e nas solenidades religiosas, eram assim também um fator de sociabilidade extravasante e um elemento modelador das sensibilidades. Delas dependia em grande medida a animação periódica da vida local, durante o século XIX e parte do seguinte. Século XIX, tempo de filarmónicas, música da rua em episódios de alegria ou de tristeza.

As Bandas Filarmónicas em Rio Maior

Vida associativa e cultural, tipografia, imprensa – o século XIX fecha-se no município de Rio Maior sob o signo do progresso. Na vila da Marmeleira surge em 1898 a primeira associação local, a Sociedade Recreativa e Instrução Marmeleirense e a força bairrista dos seus habitantes, que dará origem à Filarmónica Progresso Marmeleirense.

Filarmónicas existiram antes, certamente, mas em 1886, surgia em Rio Maior, a génese da Música Velha, banda local de certo prestígio que teve o mérito de se congregar numa espécie de coletividade que deu origem à associação denominada Sociedade Filarmónica Riomaiorense. A esta coletividade que chegou a ter sede num espaço do antigo Hospício dos Frades, onde hoje se encontra o edifício da Câmara Municipal, foi oferecido em setembro de 1892, uma bomba manual de incêndios, o que motivou a mudança de designação para Associação dos Bombeiros Voluntários de Rio Maior, no dia 22 de novembro de 1898. Neste ano, a Banda da Associação passa mesmo a denominar-se Banda dos Bombeiros Voluntários, conhecida ainda também pelas designações de Música Velha ou Banda dos Carecas. Rivalidades surgidas com a saída de alguns elementos provocam o aparecimento de outra banda em Rio Maior, a Música Nova ou Sociedade Progresso Rio-maiorense que se extinguiu em 1909 (coexistiram 12 anos), mas logo surgia a Nova Banda Artística Riomaiorense, a Novíssima, que também teve pouca duração.

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A última Banda dos Bombeiros Voluntários de Rio Maior – Músicos, 1ª fila (sentados): António Barbosa Aguiar, Manuel Barbosa, Armando Paulino, Gregório Quinzena, João Avante, Guilherme Labau, Manuel Canadas, João Fróis e Sebastião. 3ª fila (de pé): Mestre Correia, António Tiago, João Camilo, João Teodósio Canadas, Manuel Fino, Anacleto, José Pardalinho, Carlos Neves, António Pau Preto, Fernando Capitão, António Bernardino Ailó, José Sapateiro e Manuel Caralinda. Bombeiros (4ª fila): João Ferreira Amem, António Navalhas, Abel Arriscado, João Ramos, Manuel Correia, Joaquim Ramos, Luís Siopa, Idalécio, José Lota, Joaquim das Neves, António Cordelinho, Luís Lopes, Joaquim Zum, Joaquim Bernardino, Francisco Caetano Pardalinho, José Bernardino, João Correia (Albardeiro), Casimiro Ferreira, José Graciano e Vasco Soveral. Direção e Comando (2ª fila): Manuel Carreira Lopes, João Costa, Fernando Casimiro, Daniel Gomes Pulquério (2º Comandante), João Ferreira da Maia (1º Comandante), Remígio Rodrigues Costa (Ajudante), Amarino da Mata Calisto, José Machado Feliciano, José Camilo da Silva e Joaquim de Sousa Varela.

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A Banda dos Bombeiros de Rio Maior dos anos 40 está presente e documentada nesta foto que data de 1945 e onde conseguimos identificar, na 1ª fila, sentados, Manuel Caralinda, José Sapateiro, João Frazão Teixeira (diretor), Alves Coelho Filho (maestro), João Fróis Aguiar e Joaquim Crespo; na 2ª fila: Timóteo, João Avante, Carlos Neves, João Teodósio e Geada; na 3ª fila: ?, ?, António Bernardino, ?, Timóteo, ?, António Candoso, José Romão, ? e Sebastião; e na 4ª fila: Fino, Salgado, Mário Pipa, Gregório, António Frazão, Aníbal Caralinda, Chico da Marreca, Fernando Crespo e Joaquim Miguel.

Até ao início da década de 50 do século passado chegou a Banda dos Bombeiros Voluntários com períodos de altos e baixos, de esplendor e de crise. Não admira, pois, que no dia 28 de Abril de 1945 o maestro e compositor Alves Coelho Filho, como regente da Banda tenha encontrado em Rio Maior um ambiente musical propício para a exibição do seu primeiro concerto em frente aos Paços do Concelho, a que numeroso público assiste, entusiasmado. Havia uma certa tradição filarmónica em Rio Maior e muita gente que apreciava a boa música. A banda, sob a sua regência, torna-se notada também nas procissões e festas, desloca-se com êxito à Nazaré e outras terras.

Recorde-se, a propósito do ambiente musical na então vila de Rio Maior que, no dia 21 de abril de 1945, na veterana coletividade Assembleia Riomaiorense teve lugar um baile abrilhantado pela notável orquestra Alves Coelho, agrupamento ligeiro que sucedeu, à orquestra de Jazz Os Teimosos de Rio Maior, que era dirigida por Ângelo de Castro e Silva e animada por Henrique Lúcio.

Nos países de língua oficial portuguesa saliento, com ênfase, Cabo Verde, onde os músicos nascem ensinados. Nas ilhas mais pequenas, os miúdos ou vão para a praia ou vão buscar um instrumento musical, por norma o violão que jamais abandonam. As pessoas aprendem a tocar informalmente: em casa, na rua, nas rodas de tocatina. Práticas seculares de rua como as serenatas, esses fins de tarde de socialização nos terreiros que continuam inscritos no imaginário popular, constituem ainda ambientes propícios para aprender música.

Bibliografia:

– Os Sons da República, Rui Vieira Nery, Centenário da República 1910-2010;
– Homenagem da Misericórdia de Coimbra a Armando Carneiro da Silva (1912-1992), coordenação de Maria José Azevedo Santos, texto Coimbra no sé-culo XIX – breves imagens urbanísticas e sociais, por João Lourenço Roque;
– História de Rio Maior, Fernando Duarte, 1979;
– Jornal «O Público» de 18/04/2016.

 

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