Região | Diga 33 pelo segundo ano consecutivo no Teatro da Rainha

Um segundo ano de Diga 33.

Escreve Fernando Mora Ramos, pelo Teatro da Rainha.

Δ Poesia no teatro às terças terças-feiras de cada mês é dobrar um cabo de esperança boa, viajar nas paisagens do que tece a poesia como redes de sentido imprevisto, é tomar nas mãos os raros caminhos que a imaginação fertiliza, revela e expõe a contra corrente, pegar os dias no seu avesso e perscrutá-los, trazer o íntimo ao público e levar o que é de todos a cada um, partilhar  outros modos de viver, experimentar vidas, ideias de futuro amorosas, infiéis à norma, formas da peste, fogo exercitando-se, silêncio todo ouvidos.

Porque é disso que se trata, do posto de lado, ignorado, julgado de modo indiferente, marginal, residual e por aí fora, porque a beleza não tem espaço na sociedade do espectáculo, falta-lhe alarde e lantejoulas, contabilidade com estatística aprovada e o trabalho de dar forma ao que sentimos e vemos, lemos, é coisa de desviados, perdedores de tempo, transtornados. É do lado do transtorno que estamos, queremos um mundo de partilha do sensível – esse mundo têm sido as terças terças-feiras inventadas pelo Henrique Fialho mais os seus parceiros de cada sessão, em articulação associativa com as nossas criações teatrais. Partilha do sensível também porque nestas terças, a poesia dita, ouvida, discutida, os corpos em acção poética simultaneamente – ouvir poesia é observar um corpo a corpo – são palco, tráfico de amantes e descobridores, os mesmos e outros, porque a poesia nos transforma, tira-nos do tédio para voarmos com as mãos alucinadas de imagens refeitas ao instante.

E quando, como agora, chegados à banalidade da banalidade do mal, já não somos o que nos tem atentos e disponíveis porque couraçamos o sensível e de todo o exterior desconfiamos, sempre pronto a usar-nos, a tratar-nos de público-alvo, de consumi-parvos, aqui nos encontramos, nas conspirações das terças e o que podemos dizer é que somos de espalhar bom veneno, de dar a volta a isto, a nossa volta, pequeno teatro no oceano de todos os universos.

Este segundo ano de programação continua um primeiro ano de descoberta dos actuais caminhos poéticos para um autêntico novo mundo que não vem mas que vem vindo, agora que as especiarias são toque gourmet, prateleira e os índios estão, como por exemplo no Brasil, à beira de ficar sem o que lhes resta de terra própria e sagrada. A poesia é esse sagrado que o mundo da história e das geografias tem como memória primordial e é relato de possibilidades no meio de tanta controvérsia e balanço de guerras, é acto, poemacto. As palavras de invenção são futuro trilhando-se fora os carris da morte, mesmo pressentindo-a e glosando-a, tão necessário agora que todos os dias a catástrofe ecológica – e humana – parece ser um abismo imposto.

Sobre o programa específico deste ano falará quem sabe. Nós, Teatro da Rainha, estamos orgulhosos das novas terças-feiras, dias tão improváveis para tudo, até mesmo para dias de folga, que só mesmo um poeta os inventaria como dias centrais. Δ

33 outra vez.

Um texto assinado por Henrique Fialho, de introdução à 1.ª sessão de Diga 33 em 2019.

Δ «Para  que  serve  a  poesia  hoje?» é  o  título  de  um  livro  de  Jean-Claude  Pinson. A uma pergunta destas podemos apor outra: para que servem hoje conferências e debates sobre a utilidade da poesia? E mais esta: servirá hoje a poesia para alguma coisa que não tenha servido no passado? Um pouco à semelhança da presunção de um sentido para a vida, buscado, cavado, semeado, colhido no absurdo da existência, também a utilidade de toda e qualquer actividade criativa deverá ser pensada em função da antinomia suscitada pela prática do impraticável. Nada na vida carece de sentido senão a própria perdição dos homens.

Não queremos fugir à questão. Por isso ouvimos, durante o ano de 2018, poetas e editores de poesia neste hoje que é aqui e agora. Se algo pode ser concluído do que ouvimos é a forte convicção de que a poesia não está refém de tendências, modas, movimentos efémeros e passageiros. Há milhares de anos que vem sendo feita sem propósitos determinados, sem fins definidos, sem objectivos estipulados. Este é um dado adquirido: o maior sucesso de um poeta é o próprio fazer da poesia, sem objectivos nem grelhas constrangendo o caminho.

Se proliferem na web sítios atafulhados de poemas, as limitações de público são por demais comprovadas pelas tiragens reduzidíssimas, pelos circuitos de distribuição marginais, pela carência de locais onde o poema possa chegar ao leitor em estado bruto. Como é óbvio, a putativa utilidade de uma arte não se assegura pelo interesse que suscita nas massas. A ser verdade que há mais poetas do que leitores de poesia, de pouco servirá lamentá-lo. Ben Lerner, que escreveu um livro intitulado «Ódio à Poesia», diz que “o ódio à poesia é intrínseco à arte, porque é tarefa do poeta e do leitor de poesia usarem a temperatura desse ódio para dissiparem o real do virtual, como nevoeiro”.

Talvez seja exagerada a ideia de um ódio à poesia. Teremos, porventura, mera indiferença generalizada, algum desprezo, porventura desinteresse massivo e ridicularização, mas temos também o culto de nichos capazes de brindarem a poesia com festivais, soirées, edições a granel, numa proliferação de projectos editoriais, sítios online, festas, feiras, sessões, ciclos, intensas querelas e nervos à flor da pele, que colocam a poesia ao nível da doçaria conventual. Que público o da poesia senão aquele que comparece na soirée, mantendo viável a publicação adquirindo livros à margem do mercado oficial, que público senão esse raríssimo leitor anónimo que se mostra capaz, paradoxalmente, de seduzir críticos e congéneres numa avidez de artigos dedicados ao tema: para que serve a poesia?

Em 2019 propomos a continuação de uma viagem pelos territórios do poema, alargando a panorâmica para que seja possível ver mais e melhor. Queremos agora ouvir não só poetas e editores, mas também os académicos, os críticos, os tradutores, os promotores do debate que mantem acesa a chama. Queremos saber como era no passado, nessa Grécia longínqua, e se em alguma coisa é diferente neste “tempo detergente”. Vamos tentar perceber se a poesia é mesmo intraduzível, como tantas vezes se apregoa. E qual o papel dos críticos de poesia na actualidade? E daqueles que a estudam e aprofundam academicamente? Pretendemos ir um pouco além das fronteiras nacionais, penetrando o terreno da lusofonia e de linguagens geograficamente distantes. O tempo não se esgotará neste hoje presente, será igualmente um hoje passado. Porque é para lá de um espaço e tempo definidos que mais claramente o poema se afirma. O convite está feito. Δ

Diga 33 com António de Castro Caeiro e José Anjos.

15 de Janeiro – 21h30 | Sala-Estúdio do Teatro da Rainha (Caldas da Rainha).

É já no próximo dia 15 de Janeiro que tem início o segundo ano de Diga 33, Poesia no Teatro, às terças terças-feiras de cada mês, num programa elaborado por Henrique Manuel Bento Fialho.

Para 2019 está pois proposta a continuação de uma viagem pelos territórios do poema, alargando a panorâmica para que seja possível ver mais e melhor. “Queremos agora ouvir não só poetas e editores, mas também os académicos, os críticos, os tradutores, os promotores do debate que mantém acesa a chama. Queremos saber como era no passado, nessa Grécia longínqua, e se em alguma coisa é diferente neste ‘tempo detergente’. Vamos tentar perceber se a poesia é mesmo intraduzível, como tantas vezes se apregoa. E qual o papel dos críticos de poesia na actualidade? E daqueles que a estudam e aprofundam academicamente? Pretendemos ir um pouco além das fronteiras nacionais, penetrando o terreno da lusofonia e de linguagens geograficamente distantes. O tempo não se esgotará neste hoje presente, será igualmente um hoje passado. Porque é para lá de um espaço e tempo definidos que mais claramente o poema se afirma”, dizem-no do Teatro da Rainha. António de Castro Caeiro e José Anjos serão os primeiros intervenientes deste programa.

António de Castro Caeiro é professor na FCSH/UNL, membro do IFILNOVA, ensaísta e tradutor. Obteve o grau de doutor em Filosofia Antiga com a tese «A Areté como possibilidade extrema do Humano, fenomenologia da práxis em Platão e Aristóteles» (1998), pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa (UNL). Ensina na FCSH desde 1990, dedicando-se à Filosofia Antiga e à Filosofia Contemporânea. Foi Visiting Scholar na FD de Ribeirão Preto da USP, USF (Florida) e Oriel College (Oxford). Traduziu do grego as Odes Para os Vencedores (Quetzal, 2010) e as Odes Olímpicas (Abysmo, 2017) de Píndaro. De Aristóteles, traduziu ainda Os Fragmentos dos Diálogos e Obras Exortativas (INCM, 2014), tendo publicado ainda os ensaios «São Paulo: apocalipse e conversão» (Aletheia, 2014) e um «Um Dia Não São Dias» (Abysmo, 2017).

José Anjos é formado em direito e músico. Tem vindo a publicar alguns poemas em revistas e colectâneas. Publicou dois livros pela Abysmo:  Manual de Instruções para Desaparecer e Somos Contemporâneos do Impossível. Tem participado em sessões de slam poetry.

Entrada livre. Lotação reduzida. Entradas condicionadas aos lugares disponíveis.

Informações: 262 823 302 | 966 186 871 | comunicacao@teatro-da-rainha.com

www.teatro-da-rainha.com

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