Região | Ecologia e Ambiente – A degradação da fertilidade do solo

ECOLOGIA e AMBIENTE

A degradação da fertilidade do solo

Coordenação e texto de Tomás Duarte Ferreira | nairojorn@hotmail.com

Desde há muito que é conhecida a relação entre o crescimento demográfico e a sobre-exploração dos recursos naturais do planeta.

Causas de origem antropogénica são, na atualidade, consideradas as grandes responsáveis pela redução da diversidade biológica e pelo agravamento de alterações substanciais no domínio climático.

Regiões tropicais há onde os solos, empobrecidos pelo uso intensivo, há muito se esgotaram originando fenómenos erosivos irreversíveis em áreas consideráveis.

Em zonas de clima temperado a contaminação de terras, com aptidão agrícola, por resíduos industriais ou devido à prática de agricultura intensiva, os resultados não são diferentes.

As queimadas alteram, direta ou indiretamente as características físicas, químicas e biológicas, como o pH, teor de nutrientes e de carbono, biodiversidade, temperatura, porosidade, densidade, etc. contribuindo também para a diminuição da qualidade do ar e da água e para o aumento do efeito de estufa devido à libertação para a atmosfera de consideráveis volumes de dióxido de carbono, metano, monóxido de carbono e dióxido de azoto, o que também é prejudicial a todas as formas de vida planetária.

Não obstante o conhecimento que os estados possuem da gravidade do problema, a avaliar pelos resultados não parece haver muita urgência em reverter a situação. No entanto, segundo um estudo publicado no International Journal of Life Cycle Assessement, 38% da superfície terrestre do Mundo estará em risco de desertificação. Regiões de países do próximo Oriente, Austrália, sudoeste da China e faixa oeste da América do Sul são as que estarão numa situação mais crítica.

O solo é um espaço de vida. Nele existem milhões de organismos, desde as bactérias até aos invertebrados e aos pequenos mamíferos. As bactérias do tipo Streptomyces, responsáveis pelo odor do húmus, vivem em simbiose com o micélio dos fungos formando parte dos microrganismos essenciais para a riqueza do solo. Toneladas de minhocas revolvem, delicadamente, cada hectare de terra constituindo um autêntico reator biológico, capaz de produzir mais de meia tonelada de matéria orgânica nessa área por dia. É certo que a mineralização de matéria viva, apenas corresponde a 2% do volume total do solo mas, a função que desempenha, é crucial. Em zonas onde esta ação não tem lugar, o solo apresenta-se compacto, deixa de ter arejamento tornando impossível a existência de vida.

A mineralização dos resíduos orgânicos é a principal agente de fertilidade do solo. Tanto o azoto, como o fósforo e o potássio são fundamentais para o crescimento dos vegetais. Por outro lado, quanto maior for a porosidade tanto maior será a possibilidade de absorção da água e dos sais minerais, que constituem a seiva bruta, e de que as plantas necessitam para a sua nutrição e desenvolvimento. A relação entre a vida biológica e o solo é direta isto é, quanto maior for aquela mais rico é este. Mas o papel de filtro das águas pluviais, que o solo também desempenha, não é despiciendo tanto mais que a qualidade química e biológica dos lençóis freáticos e das águas de superfície é, em grande de parte, devida a este mecanismo depurativo.

A origem da degradação dos solos não está apenas no excessivo uso de adubos e pesticidas, por atividades agrícolas, ou na salinização resultante do excesso de utilização das águas subterrâneas. Outras atividades humanas há corresponsáveis pela degradação quantitativa e qualitativa dos solos em diversas regiões do Mundo. A indústria, depositando com demasiada frequência resíduos contaminantes em solos periféricos, a desflorestação possibilitando a ação erosiva do vento e da chuva, a substituição de árvores de grande porte por coníferas ou folhosas – eucaliptos – de crescimento mais rápido, e a lixiviação por um lado, os resíduos atmosféricos de óxidos de enxofre e de azoto por outro, vêm provocando a acidificação das terras e a redução da fertilidade. A maior parte dos solos agrícolas dos países ricos está ameaçada pela erosão causada pela sobre-exploração e decréscimo da vida microbiana. Cada grama de terra alberga 100 milhões de bactérias, 10 milhões de actinomicetas e 1 milhão de fungos microscópicos. Por sua vez, uma terra rica pode albergar até 3 milhões de nemátodos, 100 000 ácaros, 5 000 invertebrados diversos e 1 000 formigas por cada metro quadrado.

Quanto maior for a riqueza biológica do solo tanto maior será a sua produtividade mas não se deve exigir demasiado da terra se se quiser evitar a sua destruição. As terras realmente cultiváveis correspondem a apenas 22% da superfície emergente do nosso planeta ou seja, a cerca de 3 041 milhões de hectares. Destes, 887 milhões encontram-se em países desenvolvidos e 2,54 milhões nos não desenvolvidos ou em vias de desenvolvimento. Podemos pensar que existe uma notável reserva disponível? Na realidade, se bem que os solos dos países desenvolvidos se encontrem intensivamente explorados, os dos países em vias de desenvolvimento estão submetidos a importantes limitações climáticas que, condicionando a sua utilização, suscitam bastantes interrogações em relação à possibilidade de se considerarem reservas disponíveis. Com efeito, cultivar um terreno implica uma rotura com o seu estado natural. A formação do húmus realiza-se mediante um intercâmbio com a cobertura natural, bosques ou prados. O solo proporciona à planta a matéria orgânica necessária ao seu crescimento. Por sua vez, a planta, mediante o apodrecimento das folhas mortas, restitui ao solo o que dele recebeu, por meio de um ciclo muito lento mas perfeitamente equilibrado. Quando se arroteia uma terra para agricultar, a área desbravada necessita pelo menos de 10 anos de cultivo, para que a sua matéria orgânica diminua 50%. Curiosamente, nos países tropicais são apenas necessários dois ou três anos para que o empobrecimento da terra arroteada seja total. No princípio do século XX, a reposição do “deficit” de matéria orgânica, resultante da prática duma agricultura intensiva era feito pela incorporação de estrume no solo empobrecido. Mais recentemente, essa compensação passou a fazer-se mediante adubações químicas, com formulações diferentes, consoante as necessidades em elementos nutritivos reveladas pelos solos.

O conceito de agricultura intensiva surge na década de 50. A utilização de máquinas mais potentes, tecnicamente mais evoluídas, aliada à melhor qualidade das espécies vegetais obtidas, por vezes mediante processos genéticos, permitiu o aumento considerável das produções. Por exemplo, nas grandes regiões europeias produtoras de trigo passou-se de 25 quintais (2 500 kg) por hectare em 1921, para 80 em 1998.

O uso excessivo de adubos e pesticidas provocou a contaminação das águas superficiais e subterrâneas, diminuindo drasticamente a vida biológica dos solos e originando capas que os tornam sensíveis à erosão hídrica.

A arroteia do mato, possibilitando o aumento da área de cultivo, facilitou a ação erosiva da chuva que, livre do obstáculo constituído pela vegetação removida, passou a percorrer o terreno mais livremente e com maior velocidade, arrastando as partículas finas – argila e limo – e empobrecendo, cada vez mais, as áreas de cultivo. Também a irrigação vem dando significativo contributo à destruição do solo. A água bombeada das camadas mais profundas do solo contém um pequeno volume de sal que se vai acumulando à superfície aumentando, consoante a frequência da irrigação, até provocar a salinização que torna impraticável qualquer processo cultural. Na Índia mais de 20 milhões de hectares são estéreis devido à salinização, calculando-se que este fenómeno seja responsável pela esterilidade e abandono da quarta parte da área mundial suscetível de irrigação. Embora se acredite nas virtualidades da autêntica agricultura biológica, como processo capaz de minimizar os efeitos negativo da sobre-exploração do solo agrícola, é na agricultura sustentável que envolve o desenvolvimento de sistemas de produção agrícola produtivos, conservando os recursos naturais, protegendo o ambiente, melhorando as condições de saúde e de segurança a longo prazo, e racionalizando a utilização de adubos e pesticidas, que estão depositadas as mais fundamentadas esperanças.

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