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ECOLOGIA e AMBIENTE

Amazónia, potencial produtora de CO2?

Coordenação e texto de Tomás Duarte Ferreira | nairojorn@hotmail.com

A situação na Amazónia é tão grave que ao invés da ação purificadora do ar atmosférico, que tradicionalmente lhe vem sendo atribuída, a floresta da região pode já ser uma potencial emissora de gases de efeito de estufa.

Esta é a preocupante conclusão a que chegou um estudo, relativamente recente, realizado por cientistas brasileiros e britânicos e publicado na revista «Science». Dele se infere que a estiagem verificada em 2010 foi significativamente mais perniciosa, numa perspectiva ambiental, do que a então considerada catastrófica ocorrida em 2005, tida como a pior das últimas décadas. Até então algo de semelhante só se havia registado uma vez em cada século. Afinal, bastou apenas um lustro para o fenómeno se repetir ainda com mais violência.

As alterações climáticas vêm sucedendo a uma velocidade muito maior, do que as ações antropogénicas necessárias para contrariar as consequências ambientais delas decorrentes. Na impossibilidade de prever e corrigir os problemas resultantes da evolução ambiental, constatam-se situações graves mediante estudos caros e morosos, divulgados em colóquios e conferências de imprensa, muitas vezes com objetivos demagogicamente políticos, ou publicados em chamativas brochuras posteriormente esquecidas em arquivos onde depressa serão cobertas por camadas de poeira, até ao dia em que uma situação mais violenta das forças da natureza imponha o recomeço do estudo e a atualização do que então já fora estudado. Entretanto, de estudo em estudo o tempo vai passando, as situações vão-se agravando, os recursos financeiros vão ficando exauridos restando apenas a miragem das soluções. Será, porventura, o que virá a suceder ao trabalho realizado por cientistas da universidade de Leeds e Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazónia –IPAM – o qual revela que a dispersão da pluviosidade caída em cinco milhões de quilómetros quadrados, foi maior em 2010 do que havia sido em 2005. O impacto produzido pela seca sobre o ciclo do carbono, foi igualmente focalizado neste interessante trabalho.

As plantas, como é sabido, absorvem a energia solar e o dióxido de carbono atmosférico, produzindo oxigénio e hidratos de carbono – açúcares –, que são a base do seu crescimento e alimentação. Se as árvores ardem o CO2 resultante da combustão é lançado na atmosfera o mesmo sucedendo se as plantas apodrecem se bem que, neste caso, o processo de libertação do carbono seja bastante mais lento. De acordo com os autores do estudo em causa, durante a seca de 2005 a floresta amazónica terá libertado cerca de 5 000 milhões de toneladas de CO2, mercê da morte de muitas árvores e da ação dos incêndios florestais que então se declararam. Mas durante a seca de 2010 a quantidade de carbono emitida, por razões idênticas, terá sido bastante maior podendo, inclusivamente, superar a produção dos Estados Unidos – o maior poluidor do mundo – que, em 2009, excedeu os 5 400 milhões de toneladas. A continuar o ciclo de secas, com a frequência da última década, não virá longe o dia em que a Amazónia deixará de ser um consumidor das emissões de CO2 produzidas pela humanidade mercê, sobretudo, da adoção de políticas energéticas e económicas discutíveis, quase sempre submetidas a interesses económicos.

A bacia do Amazonas ocupa uma área de sete milhões de quilómetros quadrados, isto é 14 vezes a área da Espanha. A vasta zona florestal desta região equatorial, em anos meteorológicos normais poderia absorver 1 500 milhões de toneladas de CO2 gerando um rácio ambientalmente positivo e um contributo não despiciendo para travar o aquecimento global, visto constituir um recetor de gases de efeito de estufa, eventualmente produzidos noutros lugares. Porém, devido ao estado de “stress” a que a floresta foi sujeita, mercê da escassez de chuva nos citados anos, admitem os cientista Paulo Brando e Lewis, coordenadores do estudo, que a região florestal da Amazónia não venha a ter capacidade para absorver CO2 como habitualmente acontecia. Lewis acrescenta: “A sucessão dos períodos de seca acentuada, pouco usuais em menos de uma década, é mais do que suficiente para anular a absorção de CO2 oriundo de bosques doutras regiões. Se fenómenos como este passarem a suceder-se com maior frequência, chegará o momento em que a selva amazónica deixará de ser valioso armazém de carbono, suscetível de retardar alterações do clima, convertendo-se ela própria num polo de emissão capaz de acelerar o fenómeno.

Há no entanto fundamentadas incógnitas sobre o impacto das mudanças climáticas no Amazonas. É possível que as secas severas se tornem mais frequentes provocando graves consequências no âmbito da floresta amazónica. “Se os gases de efeito de estufa contribuírem para o aumento de períodos de seca na região amazónica, e se estes provocarem incêndios e a morte de árvores, produzindo CO2, então estaremos perante um processo de retroalimentação extremamente preocupante”, afirmam Lewis e Brando.

Não obstante as opiniões discordantes, o que não parece suscitar grande controvérsia é o facto de, nos últimos 35 anos, a área da floresta amazónica ter sido reduzida em cerca de 13,7%. O desmatamento exigido pela expansão de atividades agropecuárias e madeireiras realizado por meio de queimadas, aumentou a produção de dióxido de carbono para níveis tão elevados que, atualmente, as plantas já  não conseguem absorver a sua totalidade. Entretanto as externalidades ambientais resultantes de práticas antropogénicas começam a ser cada vez mais evidentes e prejudiciais. A tudo isto há que juntar opções políticas já em curso ,que contribuirão decisivamente para a catástrofe ambiental em curso.

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