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Nuclear? Só os burros não mudam!

Coordenação e texto de Tomás Duarte Ferreira | nairojorn@hotmail.com

Nuclear? Sim! Obrigado! É esta a novíssima posição de quatro destacados ambientalistas britânicos, até há pouco radicais opositores da energia elétrica de origem nuclear, em apoio à nova política energética do governo britânico.

Stephen Tindale, representante do Greenpeace no Reino Unido, e Chris Goodall, respeitado ativista do Partido Verde, apostam agora na energia nuclear como medida eficaz na redução das emissões de dióxido de carbono, produzidas por outras fontes energéticas, sobretudo as de origem fóssil.

Para Tindale, que até 2005 dirigiu o Greenpeace, a mudança de atitude relativamente a esta matéria é “como uma conversão religiosa” já que “ser anti-nuclear foi, durante muito tempo, parte essencial de ser ecologista“. Diz Tindale “a minha posição era que a energia nuclear era algo equivocado, em parte, pela poluição e pelo lixo nuclear mas, sobretudo, pelo risco de proliferação de armamento nuclear”. À medida que, gradualmente ao longo dos últimos anos, foi reunindo provas do perigo iminente associado às alterações climáticas, acabou por mudar de opinião.

Por sua vez, Chris Goodall, do Partido Verde, afirma que “o debate  público sobre opções energéticas necessita de ser realista, de tal modo que as actuais circunstâncias não deixam outra alternativa que não seja a reativação da opção nuclear”. A esta posição aderiu igualmente o “guru” ecologista Chris Smith, presidente da Agência do Meio Ambiente. Diz Smith “há cinco anos sabíamos muito pouco sobre alterações climáticas e agora demos conta da verdadeira dimensão desse problema que tem a ver com as emissões de dióxido de carbono, pelo que há que «descarbonizar» a produção elétrica nos próximos vinte a trinta anos“. Impulsionado por Tony Blair, e secundado por Gordon Brown, o Reino Unido tem desenvolvido uma estratégia energética de retorno às centrais nucleares, com a entrada em funcionamento de novas unidades até 2025, considerando morta a moratória que, tacitamente, o país se comprometia a respeitar. Estamos perante a política energética de um país produtor de petróleo, e onde já se encontram instaladas dezanove centrais nucleares… Porém o Reino Unido é apenas um exemplo de mudança da política energética de um país, preocupado com o futuro e o bem-estar dos que nele habitam.

A Suécia, onde 50% da energia elétrica consumida é de origem nuclear, decidiu abandonar a moratória estabelecida pelo referendo de 1980, que previa o fecho das estruturas nucleares ao longo de trinta anos preparando-se para, não só não fechar os dez reatores que ainda possui, como para os substiuir à medida que isso se tornar necessário. Mas, o exemplo mais sonante vem do acordo de cooperação nuclear franco-italiano, assinado em Roma há relativamente pouco tempo, que ficou a constituir o primeiro passo para o regresso da Itália à energia atómica. Roma fica sendo o marco duma nova era na produção energética italiana que, em 2020 verá a primeira das quatro centrais nuclerares a construir, com referencial tecnológico EPR, entrar em atividade. A França, em compensação, viu abrir-se um atrativo mercado com que as suas empresas não contavam, graças à escandalosa especulação dos produtos petrolíferos e à instabilidade do banco/bolsista. Assim, a Itália passará a produzir 25% da energia eléctrica que consome, a partir do nuclear, diminuindo a sua depedência do gás e do petróleo. Obviamente… o ambiente agradece!

O realismo italiano sobrepôs-se, certamente, ao romatismo dos que já viam os Alpes, e até talvez  o Vesúvio, cobertos por moínhos de vento que num incansável rodopiar lá iam, laboriosamente, produzindo milhões de vátios de energia elétrica, alegrando os camponeses italianos com a musicalidade das suas rotativas pás, e atraindo turistas de máquinas em riste, para fixarem as súbitas e “valiosas” alterações paisagísticas, que nem nas pinturas de Miguel Ângelo, da capela Sistina, encontrariam concorrência. Dura lex… sed lex, e a verdade é que a Itália voltou à energia nuclear, convicta de que um erro pode sempre ser corrigido, assim haja a inteligência suficiente para tal. O meu trisavô materno, italiano oriundo da região da Ligúria, deve estar orgulhoso pela acertada decisão da sua bela Itália mas triste pelo facto de o país que o acolheu, Portugal, não ter ainda tomado uma decisão no mesmo sentido que, obviamente, é a que melhor poderá servir os interesses e as necessidades do povo português. A importância do tema e o caminho a seguir, bem justificam que através de referendo se pergunte ao Povo qual a decisão a tomar. Queremos um meio ambiente mais limpo e uma menor dependência de movimentos energéticos especulativos, ou desejamos continuar na senda da incerteza sem saber se amanhã irá haver energia elétrica suficiente para permitir o funcionamento de fábricas, hospitais, iluminação pública, habitações, etc.? Necessidades que a energia eólica, cara e insuficiente, dificilmente poderá satisfazer.

Ao todo existem na Europa 188 centrais nucleares.

Observando o mapa da distribuição das centrais nucleares europeias fácil será concluir que só um grupo muito restrito de países europeus não possui energia de origem nuclear e, curiosamente, como é o caso de Portugal vão comprar aos outros o que poderiam eles próprios produzir. Será isto inovar? Ou será desperdiçar a oportunidade de, finalmente, sermos um país verdadeira e inteligentemente europeu que, antes de mais, privilegia o bem-estar e a independência do seu povo e o protege dos especuladores internacionais? Segundo a OCDE, 21,6% da energia elétrica dos trinta países seus membros, foi produzida em centrais nucleares. Que fazer? Dar a palavra o Povo! Obviamente…

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Um Comentário

  1. Isabel Ferreira diz:

    Excelente artigo.Tema muito pertinente e actual,cujo conteúdo devia ser mais divulgado.

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