Região | João Bastos e o IX Congresso Nacional de Suinicultura

CONGRESSO NACIONAL DE SUINICULTURA – RIO MAIOR – 8 E 9 DE MAIO DE 2019

ENTREVISTA* COM O SECRETÁRIO GERAL DA FPAS, JOÃO BASTOS

* Entrevista com perguntas e respostas escritas, via internet.

NOTA BIOGRÁFICA

João Bastos, secretário-geral da FPAS.

Após um período de quatro anos e meio como Secretário-Geral Adjunto da FPAS Federação Portuguesa de Associações de Suinicultores, o engenheiro Zootécnico João Bastos, antigo aluno do ISA (Licenciatura de 2004-2008), e presidente da Associação de Estudantes do ISA no período 2011-2012, iniciou funções como secretário-geral da FPAS, no passado dia 1 de Janeiro de 2019.

João Bastos nasceu e reside em Almeirim. À margem do trabalho, é um apaixonado pelo desporto, em particular pela corrida.

A ENTREVISTA

Região de Rio Maior – A FPAS considera este Congresso como “inovador no sentido em que traz para discussão temas polémicos dentro do setor, com o objetivo de os debater e os enquadrar numa estratégia de futuro que visa o impacto cada vez maior da suinicultura na economia nacional.” Tendo em conta que um dos temas será «A Suinicultura no Planeta China – Potencialidades do Futuro na Suinicultura».

1 – Parece claro estarmos a falar de um crescimento exponencial da suinicultura em Portugal. Os problemas de poluição causados por explorações suinícolas no país estão longe de se encontrarem resolvidos – ainda recentemente se registaram descargas frequentes na ribeira de São Gregório que atravessa a cidade de Rio Maior – e porque não encontro no programa do Congresso um único ponto relacionado com a poluição, pergunto:

a) A FPAS pode assegurar que o incremento da suinicultura não se irá traduzir num aumento exponencial da poluição dos cursos de água, lençóis freáticos e do ar que se respira em áreas urbanas, o que é completamente inaceitável? Como é que esse impacte ambiental deve ser evitado? Passará, entre outras medidas, pela engorda dos leitões apenas onde nascem, em vez de serem transferidos para engorda para outros pontos do país?

João Bastos – Os problemas relacionados com os impactos ambientais são entendidos pela FPAS como os maiores desafios que o setor tem de enfrentar no presente e no futuro. Já em Congressos anteriores essa problemática foi discutida e, na realidade, este Congresso também o aborda, através da presença de Nuno Forner, representante da Plataforma Zero, na mesa redonda «Tendências do Consumo». Também em Fevereiro do ano passado promovemos em Oeiras, no Auditório do INIAV, o Seminário «Suinicultura e Ambiente», um evento que contou com a presença dos maiores peritos internacionais na área da tecnologia de gestão de efluentes pecuários, oriundos de Espanha, França e Dinamarca, países com uma maior concentração produtiva em meios urbanos e que, ainda assim, conseguem encontrar as melhores soluções políticas, técnicas e tecnológicas para o desenvolvimento da atividade de forma ambientalmente sustentável.

Este seminário apresentou e debateu os instrumentos de gestão de efluentes enquadráveis com a estratégia nacional para os efluentes pecuários e visou, também, refletir sobre as melhores práticas de gestão desses mesmos efluentes e os respetivos instrumentos legais para a sua aplicação.

Sendo uma prioridade nacional, a FPAS assume a preocupação com o ambiente como um desígnio estratégico, num sector que se pretende revitalizar e inovar, norteando o seu plano de atividades no sentido de priorizar a sensibilização dos produtores suinícolas para o desenvolvimento de práticas de produção respeitadoras do meio ambiente.

Também para esse fim, a FPAS promoveu em Outubro passado uma reunião entre a Secretaria de Estado do Ambiente, a Secretaria de Estado da Agricultura, a Secretaria de Estado das Florestas, os municípios com maior atividade suinícola e os maiores empresários suinícolas a fim de serem debatidas soluções para os problemas ambientais provocados pela descarga de efluentes. Nessa mesma reunião a Secretaria de Estado do Ambiente apresentou um Modelo de Intervenção Pública para o Tratamento de Efluentes, o qual estaria implementado até ao final do ano 2018. A FPAS já pediu inúmeros esclarecimentos sobre o andamento do processo, mas o mesmo não saiu ainda da fase de processo de intenções.

O projeto que apelidamos de «Segmentação de Ciclo» visa, também, a sustentabilidade ambiental. É um modelo produtivo que temos vindo a defender como solução para o crescimento territorialmente sustentável da atividade no nosso país. Este modelo consiste na conversão das explorações de ciclo completo (maternidades, recrias e engordas) em explorações de ciclo 1 (maternidades e recrias), nas zonas de maior concentração, deslocalizando o ciclo produtivo mais poluente (engordas) para zonas ambientalmente mais defensáveis, onde os efluentes deixam de ser um problema para passarem a ser uma solução de valorização agronómica em solos com carência de matéria orgânica.

Acreditamos que este modelo permite fazer crescer a atividade, diminuindo a carga poluente provocada pela mesma. No entanto, não é compaginável com a morosidade e complexidade dos processos de licenciamento da atividade pecuária. Nenhuma atividade subsiste se os estabelecimentos onde se desenvolvem demorarem 6, 7, 8… anos a obterem autorização para laborar. É uma mudança de paradigma que tem de ser feita a nível político a bem da atividade pecuária e a bem das comunidades rurais.

b) O impacte cada vez maior da suinicultura na economia nacional passa apenas pelo território nacional ou inclui investimentos de suinicultores portugueses na China?

João Bastos – A China é o maior produtor mundial, o maior consumidor mundial e o maior importador mundial. Por isso um dos temas deste Congresso é a aproximação comercial entre Portugal e o “Planeta” China.

Apesar da China produzir cerca de 50% da carne suína produzida no mundo, não o consegue fazer de forma competitiva por várias razões, nomeadamente genética animal, de disponibilidade de recursos naturais e de logística de transporte. Por isso, a tendência futura da China será no sentido do aumento das importações e diminuição da produção. Nesse sentido, não será crível assistirmos a investimentos de suinicultores portugueses na produção chinesa.

No entanto, o mercado asiático é um mercado em ebulição com características bastante heterogéneas. Para além da China, também a Coreia do Sul, o Japão e as Filipinas são mercados muito atrativos onde o consumo de carne suína está em acelerado crescimento.

Com a aproximação da produção e indústria nacional ao mercado asiático, com certeza que novas oportunidades de investimento poderão surgir no futuro próximo.

2 – O Congresso também vai assistir a uma «Palestra Magistral» sobre «Carne Sintética, uma opção à vista». Perdoe-me a ignorância que a pergunta contém, mas com o incremento da suinicultura e as campanhas de fomento do consume da carne de porco, a carne sintética será mesmo necessária num país como o nosso, que está em acentuada perda de população humana?

João Bastos – A Comissão Organizadora do IX Congresso Nacional de Suinicultura planeou este Congresso com base na discussão dos temas que efetivamente afetam de forma positiva ou negativa esta área de negócio, ou seja, as ameaças e as as oportunidades. Desse modo, iremos iniciar os trabalhos, no dia 8, com as intervenções que colocarão o setor a pensar no modo como terá de se posicionar no mercado face aos potenciais concorrentes, seja a carne sintética, seja a crescente tendência de opções de consumo vegetariano, seja a sustentabilidade da produção. Já no dia 9 falaremos das oportunidades de crescimento do setor como a internacionalização e as campanhas de promoção sectoriais, terminando com uma intervenção subordinada à gestão empresarial e à motivação de equipas.

Concretamente sobre a carne sintética, naturalmente consideramos que não temos necessidade de substituir a carne natural no espaço europeu. No entanto, esta poderá ser uma realidade a muito breve trecho e quando vemos que por trás do desenvolvimento desta tecnologia estão empresários que dominam a tecnologia de informação a nível mundial como Bill Gates e Mark Zuckerberg e quando a mesma está já a ser propagandeada como “alternativa vegan”, quando na realidade é sintetizada a partir de células animais, facilmente percebemos que é necessário elucidar as pessoas antes que esta se torne uma realidade com detalhes desconhecidos. O que pretendemos, uma vez mais, é discutir os temas que afetam o setor.

3 – Além das intervenções sobre o “Planeta China” e a “Carne Sintética”, que outras abordagens prevê, que possam trazer mais-valias, nomeadamente a nível do conhecimento, aos congressistas?

João Bastos – Nesta edição, a Comissão Organizadora optou por organizar um Congresso menos técnico e mais subordinado ao negócio. O setor está agora a recuperar da forte crise que o abalou indelevelmente em 2015 e 2016 e vê abrirem-se boas perspetivas que tem de aproveitar.

Nesse sentido, não é nossa expectativa que este Congresso seja um fórum de transmissão de conhecimentos técnicos e académicos. Desejamos, sim, que este Congresso tenha um fundamento estratégico para o setor. Não pretendemos que a transmissão de conhecimentos seja apenas de uma via, pretendemos promover neste Congresso um Think Tank de onde resultem as grandes linhas estratégicas para o quadro plurianual  de intervenção da FPAS nos próximos 4 anos.

A isso não é alheio o ano eleitoral que atravessamos, bem como a implementação da Política Agrícola Comum a vigorar a partir do próximo ano, num contexto de turbulência provocado pelo Brexit. É tempo de reflexões e de tomar decisões. É nesse sentido que a FPAS convida todos os agentes do setor a virem ao IX Congresso Nacional de Suinicultura.

Para isso, contaremos com a presença de alguns dos mais reputados consultores internacionais como os espanhóis Carlos Buxadé e Oscar Mozun, o brasileiro Osler Desouzart e a colombiana Liliana Galindo, e ainda conceituadas autoridades nas suas áreas em Portugal, como o Professor de Marketing, Pedro Aguiar, a Professora de Nutrição Humana, Carla Gonçalves e os consultores Nuno Vieira e Brito e António Nogueira da Costa, entre outros.

4 – O que é que levou a FPAS a escolher a cidade de Rio Maior como palco do IX Congresso Nacional de Suinicultura?

João Bastos – Rio Maior tem uma ligação histórica à produção suinícola nacional, não só no plano empresarial, como no plano político. Foi em Rio Maior que o sector protestou de forma mais veemente contra a forma como a produção pecuária foi negligenciada no processo de integração na Comunidade Económica Europeia. Mais recentemente, foi também em Rio Maior que o sector exigiu que a lei da rotulagem fosse cumprida.

Rio Maior é uma terra de famílias ligadas à suinicultura. Muitas já abandonaram a atividade, mas mantêm por ela um carinho nostálgico por ter sido durante gerações o principal sustento familiar.

Por outro lado, também foi determinante a forma entusiasta como o município de Rio Maior acolheu a Organização do IX Congresso Nacional de Suinicultura, sendo um verdadeiro parceiro desta Organização.

Neste sentido, só temos a agradecer ao Município de Rio Maior, particularmente à presidente Isaura Morais e extensivamente a todos os colaboradores que connosco têm desenvolvido este evento que, estamos certos, será muito bem sucedido.

Perguntas: Carlos Manuel

Obs.: Veja os primeiros desenvolvimentos em: http://www.regiaoderiomaior.pt/…/regiao-apoio-financeiro-d…/

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