Região | «O Riomaiorense», o presente e o futuro da imprensa regional

No 125º aniversário do título de imprensa «O Riomaiorense», EICEL 1920 promoveu mesa-redonda sobre o presente e o futuro da imprensa regional.

Sessão comemorativa do 125º aniversário do jornal «O Riomaiorense», vendo-se na mesa, da esquerda para a direita a vereadora da Cultura, Ana Filomena Figueiredo, o vice-presidente da EICEL1920, António Moreira e a presidente da assembleia-geral, Manuela Fialho.

Comemoraram-se no último sábado, 14 de julho, na Biblioteca Municipal Alexandre Laureano Santos de Rio Maior, os 125 anos de «O Riomaiorense», título da imprensa local fundado em 2 de Julho de 1893 pelo professor Manuel José Ferreira.

Presidiu à primeira parte da sessão o vice-presidente da EICEL1920, António Moreira, na ausência, em Macau, de Nuno Rocha, o presidente. Moreira reiterou a grande ambição da EICEL que é a recuperação do edifício da antiga fábrica de briquetes da Mina do Espadanal, assunto que estará “mais ou menos bem encaminhado” sendo no entanto necessário “avançar mais nesse aspeto”.

Foi um auditório lotado que assistiu e participou nesta comemoração promovida pela EICEL 1920, Associação para a Defesa do Património, atual editora do título, que sob a direção do seu presidente, Arq. Nuno Rocha, é publicado anualmente on line.

«O Riomaiorense» vai assim na sua 11ª série, encontrando-se on line por ocasião da efeméride que se está a assinalar, o seu 3º número.

A 10ª série foi tutelada pela PressRio, proprietária do jornal Região de Rio Maior, entre 2001 e 2011 e posteriormente pela Leitura Fiel, empresa a que foi cedida a propriedade do Região de Rio Maior e de «O Riomaiorense», tendo este título tido como diretor Ivan Costa até 2013 e em 2014 Feliciano Júnior. Publicava-se então em papel, findo cada ano, em apenas quatro páginas nas quais eram listados os títulos de todas as notícias, reportagens, apontamentos, entrevistas, enfim de toda a matéria jornalística publicada ao longo desse ano pelo jornal Região de Rio Maior, dentro do qual «O Riomaiorense» era distribuído.

Vem a propósito revelar que a PressRio, por proposta do jornalista Ivan Costa decidiu avançar para o registo do título «O Riomaiorense», que estava livre há pouco tempo, a fim de assegurar que ficaria ao serviço da comunidade onde nascera, numa altura em que proliferavam em Portugal publicações tipo jornal, colaterais ao jornalismo.

A Leitura Fiel – Publicações Unip. Lda., que sucedeu à PressRio, viria a ceder, gratuitamente, «O Riomaiorense» a Nuno Rocha, que pretendia colocá-lo ao serviço da meritória finalidade de defesa do Património, desde logo o Património Mineiro de Rio Maior mas não só, da História de Rio Maior também, da EICEL1920, que o edita desde 2015.

Na comemoração dos 125 anos de «O Riomaiorense», «O passado, o presente e o futuro da imprensa regional» foi o tema de uma mesa-redonda protagonizada por Manuela Goucha Soares e Adelino Gomes, ambos jornalistas e Luís Laureano Santos, advogado e ex-radialista. Um tema que perpassou todas as intervenções.

Mesa-redonda: Manuela Goucha Soares, António Moreira, Luís Laureano Santos e Adelino Gomes.

Nascida em Coimbra, Manuela Goucha Soares está ligada a Rio Maior por via paterna e demais laços familiares; tem feito a sua carreira profissional no Expresso.

Luís Laureano Santos é o segundo de quatro filhos do patrono da Biblioteca Municipal de Rio Maior, Alexandre Laureano Santos; foi colaborador de «O Riomaiorense» e fundador do jornal «O Concelho de Rio Maior».

Adelino Gomes, de Marrazes (Leiria), já reformado, é uma referência do jornalismo português pós 25 de Abril e da formação de jornalistas, das últimas quatro décadas, chegando a ser aluno de Luís Laureano Santos.

Se a importância do tema se justificava só por si, foi a pungente necessidade de colmatar o vazio deixado na comunidade pela cessação da publicação em papel do Região de Rio Maior ao fim de 29 anos, 2 meses e 26 dias de presença semanal encerrada ao nº 1525, em 29 de dezembro de 2017, que arrancou de uma emocionada Ana Filomena Figueiredo, que detém o pelouro da Cultura na Câmara Municipal de Rio Maior, um “verdadeiro grito de alma riomaiorense” – como o considerou António Moreira –, preferindo proclamá-lo mais como uma mulher desta terra do que como vereadora a representar a autarquia naquele ato.

Ana Filomena Figueiredo quando falava do que lhe ia na alma, na abertura da sessão comemorativa dos 125 anos do jornal «O Riomaiorense».

“Vou falar-vos em nome de Ana Filomena e Silva Antunes Figueiredo, residente nesta terra e riomaiorense. Estou comovida. Estou comovida porque vejo uma sala cheia de riomaiorenses. Estou comovida porque ontem estive na tomada de posse dos novos órgãos da Associação Cultural do Concelho de Rio Maior onde vi meia dúzia de gatos-pingados e me questionei: onde está a massa crítica desta terra?

A massa crítica desta terra faz-se de vocês, faz-se de mim que sou uma nova geração, faz-se do Daniel Pinto, temos responsabilidades para com a nossa terra e os nossos ascendentes (…).

Não nos esqueçamos que o Dr. Alexandre Laureano Santos (nr.: pai de Luís Laureano Santos, um dos interveniente na mesa-redonda)  foi um grande benemérito cultural para com a nossa terra; nunca deixando a sua atividade profissional soube olhar para a população e proporcionar-lhe melhor qualidade de vida, que não era em bens materiais mas no imaterial, que enriquece o homem e proporciona-lhe o alcance dos bens materiais.”

Alexandre Laureano Santos “também foi responsável pelo ensino secundário, na então Escola Comercial. (…) Também os ascendentes de muitos de vós aqui presentes – e vocês –, tiveram responsabilidades por Rio Maior”, prosseguiu a edil, lamentando: “Tenho muita pena, e por isso falo em nome da Ana Filomena, que tem dois filhos e não tem a certeza se a minha terra consegue receber os meus filhos no futuro. E é aqui que eles têm as suas raízes.”

“(…) Quem me conhece sabe que eu ponho a política de lado e olho para o que é certo. Tento não olhar com binóculos – porque é importante que não olhemos para a realidade com binóculos. (…) A evolução, o crescimento de uma terra faz-se exatamente da pluralidade de pensamento”, alertou. Exemplificando, recordou o exemplo da riomaiorense Georgete Goucha que “foi vereadora da Cultura de Rio Maior e também ela soube abraçar todos os partidos políticos e com ela todos trabalharam em prol da Cultura em Rio Maior”.

Ana Filomena Figueiredo concluiu afirmando: “A EICEL1920 não tem que agradecer à Câmara Municipal. Quem tem que agradecer é a Câmara Municipal, pelo papel que a EICEL1920, hoje está aqui a ter”.

Desta celebração, no mesmo dia em que eu soube do encerramento de mais um jornal de referência do Ribatejo, retive o que foi recordado e argumentado pelos três convidados para a mesa redonda sobre o passado, o presente e o futuro da imprensa regional. Pouparei o leitor destas linhas à extensão das preocupações, análises e hipóteses de reafirmação para a imprensa, em especial a regional/local, dando aqui notícia da síntese feita por Adelino Gomes, mas não sem antes referir o que arbitrou com bom humor Luís Laureano Santos, a pedido do jornalista, na sequência de uma interessantíssima troca de ideias entre aquele e Manuela Goucha Soares: “As vossas duas intervenções fazem-me lembrar o problema dos ovos e do presunto; o que é bom é tudo junto!”

Aqui fica a síntese, partindo do princípio que a crise do jornalismo é estrutural e as redações precisam de inovar:

  1. Mostrar quem é e de que perspetiva; assumir a perspetiva geográfica, sociodemográfica e política, isto é a partir de que perspetiva vê o mundo e a sua terra.
  2. Transformar o que antes eram os assinantes em membros, que devem registar-se e pagar para se juntarem aos círculos internos do jornal (nr.: participando no seu conteúdo).
  3. Encontrar novas formas de fazer jornalismo. Por exemplo o jornalismo físico, sob a forma de reuniões públicas, festivais, eventos, peças teatrais… Ou seja juntar as pessoas em torno de um motivo de interesse o que já não é apenas um órgão de informação, é sim um modo de viver o jornalismo e a cultura, no qual esse órgão, independentemente do suporte em que é editado, tem o papel de dinamizador.
  4. Passar do falar ao ouvir os cidadãos e criar mais transparência nos assuntos editoriais, de modo que as pessoas saibam das questões que se colocam.
  5. Envolver os cidadãos em todo o processo jornalístico, da idealização à pesquisa, passando pela entrega do conteúdo independente ao subsequente debate das histórias publicadas.
  6. Na colocação de conteúdos, praticar a utilização inteligente das redes sociais.

Foi também defendido o mecenato como forma de garantir a existência de órgãos de informação, transparentes, livres e independentes. “O que se podia fazer numa terra era os homens-bons e as mulheres interessadas, conscientes, juntarem-se e assumirem lutar por aquilo que vale a pena e uma das coisas que vale a pena é nós podermos discutir aquilo que nos divide e estarmos informados sobre aquilo que se passa aqui à volta”, sugeriu Adelino Gomes, rematando: isto “não é salvar o lugar de trabalho do jornalista, é salvar a vida em comunidade”.

A apresentação do nº 3 da 11ª série de «O Riomaiorense».

Na segunda parte desta sessão comemorativa dos 125 anos da fundação do jornal «O Riomaiorense», Manuela Fialho, presidente da assembleia geral da EICEL1920, apresentou o nº 3 da 11ª série de «O Riomaiorense», ao qual pode aceder por aqui: www.oriomaiorense.com

Esta edição revela imagens de todas as séries de «O Riomaiorense», numa recolha de Nuno Rocha que “põe em destaque as grandes figuras que fizeram de «O Riomaiorense» a obra que ainda hoje resiste: Manuel José Ferreira, António Gomes de Sousa Varela, António Custódio dos Santos, Armando Pulquério, António Feliciano Júnior e João Pascoal. Em artigos assinados, respetivamente, por Augusto Tomaz Lopes, Bernardo Valente de Sousa Varela, Nuno Rocha e Francisco Pascoal podemos tomar consciência das grandes figuras que estes homens representaram, da obra que legaram, da grandiosidade das suas pessoas e também da sua humanidade – humanidade que também nos lembra que nem todos os homens grandes têm um fim grandioso”, afirmou Manuela Fialho.

Concretamente no que respeita a António Custódio dos Santos, «O Riomaiorense» publica agora aquele que deverá ser o primeiro de uma série de quatro fascículos. Este primeiro tem como título «Republicano e autarca local». «Correspondente de imprensa e diretor do jornal ‘O Riomaiorense’», «Descobridor legal da Mina do Espadanal e fundador da EICEL» e «O exílio no Brasil» são os títulos previstos para os restantes fascículos.

Esta edição comemorativa dos 125 anos de «O Riomaiorense» oferece ainda outros conteúdos de grande interesse. Manuela Fialho, ela própria publica um texto de reflexão sobre a imprensa regional, intitulado «Imprensa regional livre, uma ideia utópica». De tudo o internauta se poderá inteirar acedendo a www.oriomaiorense.com.

Registaram-se ainda intervenções de:

Maria Júlia Figueiredo.

– Maria Júlia Figueiredo, a propósito do padre Armando Delgado Marques, o “construtor” da Igreja Matriz de Rio Maior (nr.: a Igreja Nova, como ficou conhecida) que está a celebrar em 2018 os 50 anos de existência. Entregou por fim uma lista de 32 títulos de imprensa que existiram até hoje em Rio Maior.

Silvino Sequeira.

– Silvino Sequeira, ex-presidente da Câmara Municipal de Rio Maior, que foi diretor de «O Riomaiorense» na sua 5ª série, exemplificou a importância da imprensa regional com a abordagem feita nessa época pelo jornal, de problemas de grande acuidade para Rio Maior, como eram o da Central Elétrica e a exploração da Mina do Espadanal, ou o da toxicodependência nesta cidade, na altura ainda vila.

Rui Andrade.

– Rui Andrade, vice-provedor da Santa Casa da Misericórdia, deplorou que se continue a chamar à Rua Professor Manuel José Ferreira, fundador de «O Riomaiorense», onde está sediada a Universidade Sénior de Rio Maior, Rua das Finanças só porque mais adiante está instalada essa repartição. Esclareceu, por outro lado, porque havia dúvidas, que na cidade de Rio Maior já existe uma rua com o nome do padre Armando Delgado Marques, na urbanização Encosta do Sol.

A finalizar este ato comemorativo a EICEL ofereceu uma ginja de honra a todos os presentes, sendo tirada no final esta fotografia de família.

Texto e fotos: Carlos Manuel

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