Região | USRM abre ano letivo com Guilherme de Oliveira Martins

A aprendizagem constitui a riqueza fundamental de uma sociedade – Guilherme de Oliveira Martins na sessão de abertura do ano letivo de 2018/19 da USRM.

Teve lugar no Cineteatro de Rio Maior, em 3 de Outubro, a sessão de abertura do ano letivo de 2018/2019 da Universidade Sénior de Rio Maior (USRM) que está com 275 alunos distribuídos por 49 disciplinas.

Alternadamente, a Câmara Municipal e a Santa Casa da Misericórdia convidam uma individualidade para  proferir a Oração de Sapiência. Este ano era a vez da Santa Casa cujo vice-presidente, Rui Andrade, convidou o Professor Catedrático de Ciências Sociais e Políticas, Guilherme de Oliveira Martins. Ao painel, no palco, juntaram-se ainda Miguel Santos, vereador agora com a área da Ação Social e Saúde e a diretora da USRM, Eugénia Reis que apresentou a sessão.

À esquerda da foto, Miguel Santos, vereador da Cultura e da Saúde, em representação do Município, ao centro o vice-provedor da Santa Casa da Misericórdia, Rui Andrade; e à direita a diretora da USRM, Eugénia Reis.

Como tem sido habitual, foi o próprio Dr. Rui Andrade que apresentou o extenso e rico currículo de Guilherme de Oliveira Martins, seu professor na Faculdade de Direito de Lisboa, administrador executivo da Fundação Calouste Gulbenkian, presidente do grande conselho do Centro Nacional de Cultura, coordenador nacional do Ano Europeu do Património Cultural 2018 só para mencionar algumas das suas atuais funções, e até recentemente, presidente do Tribunal de Contas, tendo também sido ministro da Educação e das Finanças e secretário de Estado, detentor de várias condecorações e membro de diversas ordens honoríficas nacionais e estrangeiras, homem de grande saber e vasta cultura de algum modo ligado a Rio Maior por ser membro do conselho consultivo da Fundação António Quadros, com sede na Biblioteca Municipal desta cidade.

Na introdução à apresentação do currículo do orador convidado, Rui Andrade teve o cuidado de lembrar que a Universidade Sénior de Rio Maior resulta de um protocolo firmado há sensivelmente 12 anos entre o Município e a Santa Casa, documento que mantém a sua atualidade, sendo a USRM “uma importante estrutura no seio da comunidade riomaiorense e um excelente meio de divulgação do conhecimento, entretenimento e convívio” para os seniores que a frequentam.

A Oração de Sapiência proferida por Guilherme de Oliveira Martins.

Guilhereme de Oliveira Martins proferiu a oração de sapiência.

Dada a extensão da Oração de Sapiência proferida por Guilherme de Oliveira Martins destaco o que me parece ser o essencial:

– Aquilo que distingue uma sociedade desenvolvida de uma sociedade atrasada é a capacidade de aprender. A aprendizagem constitui a riqueza fundamental de uma sociedade.

– O que tem mais valor não tem preço.

– A ideia de que tudo tem um preço é apelarmos à própria corrupção. É dar preço à honra e a honra não tem preço.

– Dizia o poeta anglo-americano T.S. Eliot (1868-1965): “Quanto conhecimento perdemos na informação, quanta sabedoria perdemos no conhecimento”. É indispensável percebermos que a relação que se vai estabelecendo relativamente a este fenómeno da aprendizagem é exatamente esta: primeiro transformar a informação em conhecimento e o conhecimento em sabedoria. Essa é a questão perante a qual nos encontramos quando falamos de humanidades, de dignidade humana, conhecimento, aprendizagem, desse paradigma tão antigo quanto a Humanidade que é o paradigma da educação permanente, a educação e a formação ao longo da vida.

– O que vale a pena é a capacidade de podermos reconhecer no conhecimento, na sabedoria, o valor fundamental da dignidade.

– Nas relações de uns com os outros o que tem mais valor é a dignidade humana.

– Nos tempos que correm vivemos numa lógica imediatista, uma lógica que não põe as pessoas e o valor da dignidade em primeiro lugar. Foi por essa razão que a União Europeia decidiu considerar 2018 como Ano Europeu do Património Cultural.

– Santo Agostinho dizia que não podemos viver senão o presente mas que esse presente é naturalmente muito fugaz. Dizia que havia três presentes: o presente que é o momento em que nos encontramos; o presente passado que é a projeção de tudo aquilo que nos antecedeu, a memória – no universo dos nossos amigos, dos nossos familiares, nós sabemos que são mais as memórias do que as presenças –, de todos aqueles que já não estando connosco continuam a guiar os nossos passos; essa projeção do que recebemos significa a responsabilidade de recebermos essa memória, essa herança, enriquecê-la e transmiti-la nas melhores condições às gerações futuras – é esse o presente futuro.

– Questionado sobre o que significava esse presente futuro, Santo Agostinho respondeu que era a espera. A espera é a esperança, a capacidade que temos de esperar que a sociedade que se seguirá à nossa possa ser melhor, deva ser melhor o que acontecerá se nós assumirmos plenamente a nossa responsabilidade de lhe transmitirmos a nossa memória.

– O que é fundamental na aprendizagem é a experiência e o exemplo. O fundamental num professor, num educador é o seu exemplo, portanto tem que haver coerência entre aquilo que cada um faz e aquilo que cada um ensina.

– A experiência é a mãe de todas as coisas, disse, citando Duarte Pacheco Pereira. Somos imperfeitos mas perfectíveis, passíveis de nos aperfeiçoarmos. Não assumimos as nossas responsabilidades de não cuidarmos permanentemente de nos aperfeiçoarmos, da fazer melhor, de reconhecer aquilo em que erramos e reconhecer que temos que fazer melhor.

– A aprendizagem é pois um fator essencial de desenvolvimento. É aquilo que nos permite distinguir o atraso da capacidade que temos de progredir, de fazer melhor. A educação, a ciência e a cultura são os elementos fundamentais para uma sociedade que quer desenvolver-se.

– Hoje, o saber científico leva-nos a concluir que as capacidades humanos podem superar aquilo que já atingiram. A esperança média de vida em breve será de 100 anos e dentro de duas gerações será de 120 anos numa sociedade desenvolvida. Hoje, a esperança de vida nascença é o dobro do que era há 100 anos.

– Mas não basta estender a vida, é preciso dar-lhe qualidade, dar-lhe atenção e aí reside a razão pela qual uma universidade da terceira idade é cada vez mais importante e terá cada vez mais pessoas e será cada vez mais significativa.

– A aprendizagem vai ser cada vez mais indispensável para compreendermos o seguinte: a partir dos 20 anos de idade perdemos irreversivelmente células neuronais cerebrais que não recuperamos, como de resto ocorre com as células por todo o corpo; porém acontece que só utilizamos 1/3 da nossa capacidade intelectual. E essa é justamente a questão que se põe em relação à população sénior, porque nós temos a possibilidade de não deixar adormecer as nossas capacidades, antes desenvolvê-las. A vossa maturidade ainda está a ser treinada, ainda está a ser atingida, porque não desistiram de aprender.

– É preciso que compreendamos desde muito cedo que temos que desenvolver as nossas capacidades.

– O primeiro país do mundo a erradicar o analfabetismo foi a Noruega, porque a Igreja Reformada Luterana proibiu o casamento das mulheres analfabetas. O filho ou a filha de uma mulher alfabetizada não será analfabeto ou analfabeta, mas o filho ou a filha de um homem alfabetizado pode ser analfabeto ou analfabeta. A medida restritiva foi tomada porque sendo na época um país quase exclusivamente piscatório, os homens iam para a pesca, as mulheres ficavam em casa e a Bíblia tinha que ser lida todos os dias, portanto elas tinham que saber ler. Sabem o que é que aconteceria numa sociedade que só apostasse nas mulheres relativamente ao ensino? O que aconteceria é que em apenas duas gerações todos estariam alfabetizados – as mulheres não suportam analfabetos! Quando esta medida foi tomada a Noruega tinha 85% de analfabetos; 30 anos depois a taxa de analfabetismo era de zero por cento.

– Humberto Eco (1932 – 2016) costumava dizer que a diferença que há entre quem lê e quem não lê é que este durará talvez quatro ou cinco décadas e quem lê viverá pelo menos 5 000 anos que é a idade da Civilização.

– Falar de património e de aprendizagem é falar essencialmente do património construído, os monumentos, os documentos, aquilo que materialmente recebemos mas é também falar do património imaterial, das tradições, da gastronomia, da língua, do modo de falar, da natureza, do património natural, das paisagens – a paisagem é a imagem de um país! –, temos que cuidar da nossa relação com a natureza, temos que a proteger. A cultura é a capacidade que temos de influenciar positivamente a natureza, de lidarmos bem com a natureza. A evolução tecnológica leva-nos ao património digital e é preciso assimilar tudo isso, proteger essa memória e cuidar dela. E por fim a criação contemporânea, os criadores, os escritores, ao artistas, todos eles fazem parte do património num conceito amplo, num conceito dinâmico.

– Sem a capacidade de criar valor acrescentado relativamente àquilo que recebemos não teremos capacidade para avançar, para tornar a aprendizagem fator efetivo de desenvolvimento, fator efetivo da dignidade.

– A universidade sénior é a antecipação daquilo que terá que ser generalizado no futuro, todos a aprenderem cada vez mais e melhor, para sermos melhores, para compreendermos melhor os outros, para não nos fecharmos sobre nós mesmos, para não fazermos do egoísmo e da indiferença regras que afinal fazem empobrecer a Humanidade.

O professor Tó Moreira, da USRM, interpretou temas de cantores portugueses de referência.

Concluída a Oração de Sapiência, o vereador Miguel Santos, que representava a presidente da Câmara, ausente, afirmou na presença do vice-presidente da Santa Casa e do orador convidado, à diretora da Universidade Sénior de Rio Maior, professores, alunos e funcionárias que podem continuar a contar com o apoio da autarquia e agora com o seu empenho pessoal.

Isaura Morais acabou por aparecer precisamente no final da sessão, sendo chamada ao palco para desejar a todos um bom ano letivo.

Texto e fotos: Carlos Manuel

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